Quarta-feira, Julho 16, 2008

Tropa de Elite

Tropa de Elite (Tropa de Elite / Elite Squad, BRA, 2007 – 123 min.)

Cartaz: Aqui

Em 1997, próximo da visita do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro, somos convidados a acompanhar as trajetórias de dois aspirantes a oficial da PM, André (André Ramiro) e Neto (Caio Junqueira) rumo à entrada de ambos no BOPE, batalhão especial de combate ao tráfico nos morros cariocas, suas relações com o sistema corrupto, a sociedade e seu mentor, o irascível capitão Nascimento (Wagner Moura).
O primeiro filme de ficção do documentarista José Padilha – de “Ônibus 174” – é um soco no estômago do espectador.
Com uma estética crua e sem rodeios, o cineasta literalmente nos joga no meio de uma operação de “limpeza” do Morro do Turango, local onde o papa ia se hospedar durante sua visita.
Utilizando um ângulo inédito no cinema brasileiro até então, que é o lado da polícia militar, “Tropa” é extremamente envolvente em sua apresentação das mazelas sociais tão conhecidas da capital fluminense com a participação de todos os seus “artistas”: os policiais, os traficantes/criminosos e a sociedade civil.
Sem tomar partido, o diretor escolheu uma frase para abrir a narrativa e que já dá o tom. O caráter do personagem é bem menos relevante para suas ações do que o ambiente onde ele está.
Dessa forma, Padilha demonstra todo o ciclo vicioso do sistema de convivência entre os marginais, os marginalizados e os supostos protetores da lei. O policial se corrompe por ser mal remunerado e mal treinado, sem disposição para ficar tomando tiros e morrer por nada; os traficantes entram na vida do crime pela total falta de oportunidade que a sociedade os concede; e essa mesma sociedade é corroída pela hipocrisia e a indignação sem sentido prático algum.
Sobra para todo mundo.
Apresentada pela eficiente e ácida narração em off do personagem Nascimento, capitão do BOPE, vivido com a garra e talento habituais por Wagner Moura – que cuida com brilho das poucas partes expositivas do roteiro; o filme não perde tempo com detalhes – a trama é maravilhosamente montada por Daniel Rezende (com idas e vindas no tempo para dar molho).
Conta ainda com um trabalho de câmera excelente de Padilha e Lula Carvalho, trabalhando com o digital na melhor tradição de Michael Mann – de “Colateral” e “Miami Vice” – na demonstração de como o baseado “inocente” do jovem privilegiado traz conseqüências graves para os moradores das favelas e para os policiais que lutam contra um inimigo poderosíssimo e inclemente: a força econômica e militar dos traficantes de drogas em contraponto com as condições indigentes de trabalho dos defensores da lei.
Esmagados por baixos salários e falta de perspectivas, a reação extremada e violenta dos membros do BOPE, mostrados como uma ilha de integridade – por opção narrativa, não que seja necessariamente verdade – em um mar de corrupção policial, representada pelos oficiais do batalhão onde os aspirantes são designados para trabalhar, é chocante; e, o que é pior, aparentemente justificada pelas circunstâncias, de se verem obrigados a devolver crueldade e total desrespeito pela vida humana na mesma moeda para não serem devorados por elas.
O capitão Nascimento, que foi endeusado, erroneamente, pelo público, é um homem essencialmente cordial e amoroso com sua família e seus amigos; e que pratica regularmente a tortura e o assassinato para atingir os objetivos de proteger a sociedade, não sem receber uma fatura terrível – sua vida familiar está em frangalhos e sua saúde está prejudicada pelo excesso de tensão e stress. Onde está a apologia da violência tão alardeada pelos patrulhadores? O cara está longe de ser mostrado como exemplo...
Com tema e apresentação tão polêmicos, o filme foi massacrado por boa parte da crítica especializada como sendo “fascista” e “apóstolo da violência e da tortura policial”. É o contrário. Sem se preocupar em apontar uma solução – um dos poucos defeitos que eu vejo no filme – “Tropa de Elite” tem o único objetivo de causar desconforto no espectador e incutir no seu público uma semente.
Essa semente é a idéia, poderosa, de que todos nós temos responsabilidade sobre o descalabro social e criminal existente hoje e podemos, se quisermos, começar a estabelecer bases para uma melhora, se deixarmos a hipocrisia de lado e reconhecermos que todos são vítimas dessa guerra e têm sua parcela para pagar: policiais, moradores, consumidores e traficantes.
Essa é, ao meu ver, o subtexto do filme, que para ser discutido com a profundidade merecida, teria que virar tese de mestrado ou doutorado. Obviamente, não é aqui o espaço para isso.
O melhor é que, como entretenimento, também funciona muito bem.
Um exemplar legítimo, na acepção positiva da palavra, de filme de ação, tem muito tiroteio – um trabalho sensacional de uso de som (chamo a atenção para, a título de ilustração, a apresentação do batalhão dos aspirantes. A narração somente pára quando os personagens corruptos falam. Brilhante), efeitos sonoros (os tiros parecem que estão zunindo sobre nossas cabeças) e efeitos especiais - correria e cenas de tirar o fôlego.
As atuações são de alto nível, com destaque para o estreante André Ramiro – alter ego do espectador – como André Matias e Milhem Cortaz como o corrupto-gente boa Capitão Fábio; os personagens e a história são tão envolventes que mal se sente passar a projeção de mais de duas horas.
Ritmo frenético, humor na dose certa, ação da melhor qualidade e idéias; uma bela mistura, praticamente inédita na produção de cinema nacional – que em sua maioria ainda está presa ao trinômio favela-sertão-pretensão.
Que orgulho e que venham mais filmes como “Tropa de Elite”!

Elenco: Wagner Moura (Capitão Nascimento), André Ramiro (André Matias), Caio Junqueira (Neto), Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Fernanda Machado (Maria), Maria Ribeiro (Rosane), André Mauro (Rodrigues), Paulo Vilela (Edu), Fernanda de Freitas (Roberta), Fábio Lago (Baiano), Erick M. Oliveira (Marcinho), Patrick Santos (Tinho), Rafael D’Ávila (Xuxa), Emerson Gomes (Xaveco), Roberta Santiago (Rose), Bernardo Jablonski (Professor Gusmão), Marcello Escorel (Coronel Otávio), Marcelo Vale (Capitão Oliveira), Paulo Hamilton (Soldado Paulo), Thogun (Cabo Tião), Murilo Elias (Coronel Antunes), Alexandre Mofatti (Sub-comandante Carvalho), André Santinho (Tenente Renan), Rod Carvalho (Tenente Barcelos).

Direção: José Padilha; Roteiro: Bráulio Mantovani, José Padilha e Rodrigo Pimentel; Produção: Marcos Prado e José Padilha; Co-produção: James D’Arcy e Eliana Soárez; Produção Executiva: Maria Clara Ferreira, Bia Castro, Genna Terranova e Scott Martin; Trilha Sonora: Pedro Bromfman; Direção de Fotografia: Lula Carvalho; Montagem: Daniel Rezende; Seleção de Elenco: Fátima Toledo; Direção de Arte: Tule Peake; Cenografia: Tiago Marques Teixeira; Maquiagem: Martin Macías Trujillo e Ignácio Pasedas; Figurinos: Cláudia Kopke; Som: Alessandro Larroca e Armando Torres Jr.; Efeitos Sonoros: Eduardo Virmond Lima, Fernando Lobo e Juliana Lago; Efeitos Especiais: Bruno Van Zeebroeck.

Classificação:
%%%%%

Meu Nome Não É Johnny

Meu Nome Não É Johnny (Meu Nome Não É Johnny / My Name Ain't Johnny, BRA, 2008 – 128 min.)

Cartaz: Aqui

Baseado no livro homônimo, vemos a trajetória de João Guilherme Estrella (Selton Mello), garotão de classe média que dominou o tráfico de cocaína na década de 80, sendo um dos reis da droga entre a elite carioca, desde o início onde vendia para sustentar o próprio vício até sua prisão.
Aos poucos o cinema nacional vai ampliando seus horizontes, saindo do esquemão infantil-sertão-favela que dominava e domina a produção cinematográfica brasileira, investindo em tramas mais urbanas, conectadas com o cotidiano. Por esse prisma, a história de Estrella caberia como uma luva para mais um salto de qualidade e de sucesso de público.
Na tradição de filmes como “Profissão de Risco” (de 2001, com Johnny Depp e Penelope Cruz), temos um panorama completo da vida do traficante. Entrando no negócio meio que por acaso, ao fazer um acordo com o fornecedor de sua galera para garantir o estoque das festas, João foi aos poucos se enredando no crime, aumentando seus lucros e também sua gastança, enquanto a maioria de seus amigos ia se arrumando na vida.
Vivido com a garra e carisma habituais por Selton Mello, João é o melhor personagem de todos, se mostrando como realmente era: um moleque que gostava de curtir e para sustentar seu estilo de vida se meteu no crime. Os méritos do filme em se recusar a glamourizar a situação do protagonista são louváveis. Estrella não tinha o menor cacoete de bandido e se apoiava muito na lábia e na sorte para se sair de complicações mortais. As melhores cenas são quando ele tem que lidar com uma dupla de policiais corruptos e na cadeia; fica muito claro que o protagonista estava no fio da navalha, qualquer errinho e era a morte certa.
Porém, mesmo com toda a capacidade de Selton Mello, não dá para arrastar um cadáver cinematográfico como este filme o tempo todo. O diretor Mauro Lima (responsável por “Tainá 2” e alguns curtas) demonstra toda sua pretensão, com muitos closes à la Fernando Meirelles (meios rostos e planos-detalhe de narizes, olhos e objetos de cena), cortes rápidos e chutando para cima a duração do filme.
Mais de duas horas de duração se torna uma tortura de assistir, principalmente porque o restante do elenco central não está à altura. Cléo Pires é o que há, uma Jessica Alba piorada e que lembra muito a atuação de Penelope Cruz no já citado “Profissão de Risco”, caricata, histérica e sem a menor expressão dramática; enquanto Mello chama o público para si o tempo todo, ela afasta todo mundo com seu arremedo de atuação, que chega a ser constrangedor.
Em cima disso, o ritmo é muito irregular, o tom do filme nunca é definido, nós não sabemos se é drama, comédia ou policial. E os personagens não são desenvolvidos a contento, principalmente os pais de João, que nunca mostram a que vieram, a não ser para chorar e fazer cara de pastel no julgamento para a desperdiçada Júlia Lemmertz e tossir para lá e para cá com Giulio Lopes. Muitas cenas se arrastam e não chegam a lugar nenhum. Daria para tirar, perfeitamente, toda a introdução (mais de vinte minutos de lenga-lenga e com atuações péssimas), a viagem à Europa, a maior parte das festas da galera de João e metade do manicômio judiciário.
Mauro Lima se deslumbrou e quis fazer “arte” em um argumento que não acolhe esse tipo de abordagem; a história de João é rápida, é agitada, é frenética. Pelo menos, a mensagem de que o crime não compensa é bem digerida, o protagonista fica um caco, prejudica todo mundo e quase quebra as finanças da família.
Que fique claro, existem bons momentos, algumas risadas genuínas e não dá para não apreciar a ótima performance de Selton Mello; pena que o resto não empolgue, faltou alma. E, definitivamente, a frase “baseado em fatos reais” deveria ser banida para sempre do cinema.

Elenco: Selton Mello (João Guilherme Estrella), Cléo Pires (Sofia), Júlia Lemmertz (Mãe ), Cássia Kiss (Juíza), Eva Todor (Dona Marly), André de Biase (Alex), Angelo Paes Leme (Julinho), Rafaella Mandelli (Laura), Giulio Lopes (Pai), Gillray Coutinho (Advogado), Luis Miranda (Alcides), Aramis Trindade (Tainha), Kiko Mascarenhas (Danilo), Flavio Bauraqui (Charles), Orã Figueiredo (Osvaldo), Hossein Minussi (Wanderley), Ivan de Almeida (Carcereiro), Flávio Pardal (Boneco), Neco Villa Lobos (Carlos), Charly Braun (Felipe), Felipe Martins (Interno do Asilo), Roney Villela (Hércules), Rodrigo Amarante (Rubão), Babu Santana (Policial Militar), Luciano Vidigal (Vendedor Gago).

Direção: Mauro Lima; Roteiro: Mauro Lima e Mariza Leão, baseados no livro de Guilherme Fiúza; Produção: Mariza Leão; Produtor Associado: Guel Arraes; Produção Executiva: Mariza Leão e Camila Medina; Direção de Fotografia: Ulrich Burtin; Montagem: Marcelo Moraes; Trilha Sonora: Fabio e Fael Mondego; Direção de Arte: Claudio Amaral Peixoto; Figurinos: Reka Koves; Som: George Saldanha e Armando Torres Jr.; Efeitos Visuais: Marcelo Pereira PeeJay e Aruan Santos.

Classificação:
%%

Bem Vindo ao Jogo

Bem-Vindo ao Jogo (Lucky You, EUA, 2007 – 124 min.)

Cartaz: Aqui

Huckleberry “Huck” Cheever (Eric Bana) é um jogador profissional de pôquer em Las Vegas. Com grande habilidade no jogo, ele se mantém com a cabeça fora d'água, embora seja óbvia sua instabilidade financeira e emocional. Grande parte dessa instabilidade vem de seu relacionamento turbulento com o pai, L.C. Cheever (Robert Duvall), também jogador profissional e que está de volta na cidade para o Campeonato Mundial de Pôquer. Enquanto luta nas mesas para angariar o dinheiro da inscrição no torneio e lidar com seus sentimentos conflitantes com o pai, Huck tenta manter um relacionamento com Billie Offer (Drew Barrymore), tarefa nada fácil de se fazer.
Um filme de narrativa convencional, salvo da mediocridade pela qualidade dos protagonistas e um bom clima de tensão gerado nas mesas de jogo, palco das batalhas entre pai e filho e razão do triunfo e tormento do personagem de Bana. Tudo gira em torno do jogo e de suas consequências para Huck e seus relacionamentos; em dado momento, o personagem de Duvall – se especializando, no final da carreira, em papéis de mentores e exemplos – afirma para o filho que ele “joga cartas como deveria viver e vive como deveria jogar cartas”, se referindo à forma extremamente defensiva com que Huck interage com as pessoas ao redor e à agressividade incrível com que se atira às partidas de pôquer. Agressividade que é determinante para afetar toda a carreira e a vida fora das mesas de carteado, pois as vitórias que Huck atinge são perdidas quase que imediatamente por um impulso irrefletido.
Essa dinâmica mantém o interesse do espectador até o final, embora a duração do filme seja excessiva.
Muita da encheção de lingüiça se deve ao relacionamento frouxo entre Barrymore e Bana, sem chama ou química de parte a parte. Funcionando como consciência de Huck, a personagem Billie poderia, facilmente, ter sido substituída por uma narração em off, recurso batido mas eficiente quando o centro de uma trama não é um casal, mas sim um pai e seu filho, que possuem a mesma profissão e níveis de excelência acima da média nesse dado trabalho. Quando dividem a cena – e as mesas – Duvall e Bana elevam a temperatura e geram uma tensão muito boa, pois fica muito clara a relutância de parte a parte em admitir que mais do que ganhar a mão, um busca o respeito e a admiração do outro.
Depois de uma fieira de bons filmes, embora nunca repetindo a excelência de “Los Angeles – Cidade Proibida”, Curtis Hanson se firma como bom contador de histórias e um detalhista extremado. O cuidado com a reconstituição de ambiente e os jogos em si, mão por mão, trazem mais sabor ao roteiro esquemático do bom Eric Roth, parceiro habitual do diretor Michael Mann, ainda que a maioria dos detalhes trazidos faça mais sentido aos que apreciam o jogo de pôquer; os não iniciados vão achar o filme um pouco enfadonho e arrastado quando aparecem as mesas de carteado. O que é uma pena, já que dois terços da trama se passam em mesas de jogo e os diálogos são de excelente qualidade.
Nesse aspecto, “Bem-vindo ao Jogo”, mesmo sendo relativamente eficiente, não chega aos pés do, para mim, melhor filme sobre pôquer dos tempos recentes, “Cartas na Mesa”, que agradava aos iniciados e aos espectadores comuns. A falta de familiaridade de Roth e Hanson com esse universo, que obviamente fascina a ambos, impediu um envolvimento maior do público.
Ambos não conseguiram se afastar o suficiente para demonstrar onde reside o fascínio do mundo da jogatina e deixaram o protagonista um pouco antipático e mais parecido com um viciado qualquer do que com um jogador no controle e que não consegue mais sucessos por seus defeitos emocionais; como vemos tudo pela ótica de Huck, inclusive os jogos, não dá para torcer muito por ele.
Duvall é muito mais bacana de acompanhar. Para piorar, a trama se passa em 2003, ano em que o Campeonato Mundial de Pôquer foi vencido por um cara que, até vencer o torneio, somente tinha jogado nos sítios da Internet que promovem jogos online – e isso passa totalmente desapercebido pelo espectador.
Na verdade, esse detalhe saboroso e que foi um dos impulsionadores da atual febre de pôquer só é revelado, praticamente, assistindo os extras do DVD. Pecado, pecado, pecado; um furo imperdoável.
Dessa forma, o filme não chega a atingir o que promete pelo elenco interessante – e recheado de jogadores profissionais reais – e trama universal.
Fica no meio-termo entre filme de esporte e filme de relacionamento. E não atinge as expectativas em nenhuma das duas frentes, ficando apenas satisfatório, pela habilidade comprovada de Hanson com a câmera e o excelente trabalho de direção de arte, cenografia e fotografia.

Elenco: Eric Bana (Huck Cheever), Drew Barrymore (Billie Offer), Robert Duvall (L.C. Cheever), Debra Messing (Suzanne Offer), Horatio Sanz (Ready Eddie), Charles Martin Smith (Roy Darucher), Danny Hoch (Billy Basketball), Saverio Guerra (Lester), Robert Downey Jr. (Jack), Kelvin Han Yee (Chico Bahn), Omar Benson Miller (Sharkey), Michael Shannon (Ray Zumbro), Evan Jones (Jason Keyes). Mais um porrilhão de jogadores profissionais de pôquer em participações especiais como eles mesmos.

Direção: Curtis Hanson; Roteiro: Curtis Hanson e Eric Roth (roteiro) e Eric Roth (história); Produção: Denise Di Novi, Carol Fenelon e Curtis Hanson; Co-produção: Mari-Jo Winkler; Produção Executiva: Bruce Berman e John Kirby; Trilha Sonora: Christopher Young; Direção de Fotografia: Peter Deming; Montagem: William Kerr e Craig Kitson; Seleção de Elenco: Mali Finn; Design de Produção: Clay A. Griffith; Direção de Arte: Beat Frutiger; Cenografia: Robert Greenfield; Figurinos: Michael Kaplan; Maquiagem: Janice Alexander e Patty York; Som: Scott Martin Gershin, Chris Jenkins e Frank A. Montaño; Efeitos Sonoros: Michael Kamper, Randy Kelley, Tom Ozanich e Steve Mann; Efeitos Especiais: John Hartigan; Efeitos Visuais: Jerry Pooler.

Classificação:
%%%

Terça-feira, Julho 15, 2008

Separados Pelo Casamento

Separados Pelo Casamento (The Break-Up, EUA, 2006 – 105 min.)

Cartaz: Aqui

Depois de um longo relacionamento, Gary (Vince Vaughn) e Brooke (Jennifer Aniston) decidem se separar, pois a moça não agüenta mais a falta de atenção do eleito. O problema é que ambos compraram, juntos, um belo apartamento e nenhum quer sair; à medida que o tempo passa, cada um tenta, de todas as formas, expulsar o outro até conseguirem vender o lugar.
Pela premissa, já dá para esperar algo pantagruélico, que irá abalar as estruturas emocionais da humanidade e mudar o mundo como o conhecemos. Certo? Nada mais longe da verdade. Formulaica por natureza, a comédia romântica não tem segredos para o espectador; a graça está na jornada, gafanhoto.
Depois de um começo promissor, com uma cena bonitinha no estádio de beisebol onde Vaughn pode mostrar seu talento para o humor verborrágico – sem ser memorável, mas arrancando sorrisos satisfeitos – é só ladeira abaixo, em um carrinho de rolimã sem freios.
O personagem principal, Gary, é um ogro de dar orgulho ao Shrek e fazer Jece Valadão bater palmas do túmulo; machista, preguiçoso e infantilizado, o protagonista não consegue fazer nada ao espectador além de causar raiva.
O máximo que ele pode pensar para irritar sua ex-cara metade é ficar dormindo o dia inteiro, jogando Playstation 2 e assistindo jogos de beisebol no último volume, além de realizar seu sonho de ter uma mesa de sinuca no meio da sala. Que ótimo, não?
Ademais, trabalha falando besteira para turistas em uma empresa de city tours que mantém com seus irmãos, onde faz nada a não ser deixar seu irmão mais velho e administrador do local maluco com suas irresponsabilidades e atitudes pueris.
Mas Brooke, por seu lado, não ajuda em nada também.
Estereotipada, e retirada das unhas dos pés ao padrão de ondas cerebrais, das páginas da revista Nova (ou sua prima estadunidense, a Cosmopolitan), a mocinha é tão ou mais irritante do que seu ex. Sua mania de limpeza, organização e a inexplicável paixão por alguém tão desinteressante quanto Gary, por quem se humilha constantemente e implora por atenção como uma criança que quer doce, deixa qualquer um exasperado. Por exemplo, andar nua pela casa para mostrar uma tal depilação especial, sugestivamente chamada de “Telly Savalas”; levar tapados para o apartamento para que o ogro fique com ciúmes, tirá-lo do time de boliche dos casados, entre outras ações idiotas.
Embora, tenha que admitir, deixa a gente com vontade de pegar no colo, principalmente quando Aniston, uma gracinha mesmo, arregala aqueles olhões verdes marejados de lágrimas. Uma mulher que trabalha como marchand de arte, com inegável competência, desenvoltura e inteligência, além de bonita, merece sofrer por escolher alguém como o ogro. Que queime no inferno!
O sortimento de coadjuvantes segue a toada: burro, irritante e sem um pingo de sentido. Desde a família inútil e chata de Brooke, que consegue desperdiçar uma Joey Lauren Adams (a esganiçada lésbica de “Procura-se Amy”) e nos constranger com cantorias na mesa de jantar até o grupo de amigos bocós de Gary. Liderados pelo troglodita de Jon Favreau (de “Demolidor”), que tem um momento de iluminação e passa o resto do filme tentando convencer o protagonista a contratar capangas para bater nos outros e resolver as coisas na porrada; o irmão mais velho, que anda de ternos apertados demais para ele, vivido por Vincent D’Onofrio (de “Nascido Para Matar” e “MIB”), parecendo mais do que nunca um retardado mental e um canastríssimo Cole Hauser (de “Eclipse Mortal”) que assume cada clichê machista possível, principalmente nas cenas da danceteria.
Boa parte da fatura indigesta vai para a conta do diretor Peyton Reed. Adepto entusiasta do “aponta e filma”, o rapaz é extremamente convencional, com ângulos e movimentos de câmera rasteiros e uma composição pobre de quadros. Ainda que use paisagens de Chicago muito bonitas, com tomadas interessantes, desperdiça seus bons momentos quase que imediatamente, abusando de closes e deixando tudo com uma aparência de uma sitcom, daquelas bem ruins. A gente fica esperando a caixa de risadas funcionar, pode?
O resto da conta, os dez por cento e a quentinha ficam com o roteiro. Conforme já deu para perceber pela descrição dos personagens, é um roteiro canalha e abusivo do direito de enganar a audiência e reforçar clichês, como as garotas gostosas e burras que todos amamos. Muitas situações aparecem porque não conseguiram pensar em nada mais elaborado, como as súbitas mudanças de comportamento. A pior sendo a transformação de 30 anos de estupidez, infantilidade e machismo de Gary para em apenas uma semana se descobrir um cara suave, preocupado com o bem-estar da parceira, e amoroso. Com diálogos razoáveis, não precisava forçar tanto a barra; a conversa dos dois depois do ogro ter dado outra furada daquelas homéricas, com a enésima oportunidade que Brooke deu para redenção, em um show de uma bandinha ridícula que somente estadunidense acha legal, chega a ser embaraçosa. De dar vergonha mesmo.
A favor, não tem piadas sobre excrementos, flatulências e crianças; um avanço e prova de coragem dos roteiristas para não sucumbirem totalmente à sua cara-de-pau. As únicas crianças em cena são os protagonistas mesmo. E tem um final bacaninha, tenho que admitir. Quase salvou o filme. Eu disse quase.
Uma perda de tempo e a prova definitiva que Aniston não sabe escolher papéis fora da televisão. Para cada um legal (“Amigas Com Dinheiro”), faz toneladas de porcaria. Haja saco, senhoras e senhores.

Elenco: Vince Vaughn (Gary Grobowski), Jennifer Aniston (Brooke Meyers), Joey Lauren Adams (Addie), Cole Hauser (Lupus Grobowski), Jon Favreau (Johnny O), Jason Bateman (Riggleman), Judy Davis (Marilyn Dean), Justin Long (Christopher), Ivan Sergei (Carson Wigham), John Michael Higgins (Richard Meyers), Ann-Margret (Wendy Meyers), Vernon Vaughn (Howard Meyers), Vincent D’Onofrio (Dennis Grobowski), Elaine Robinson (Carol Grobowski), Jane Alderman (Sra. Grobowski).

Direção: Peyton Reed; Roteiro: Jeremy Garelick, Jay Lavender e Vince Vaughn (história) e Jeremy Garelick e Jay Lavender (roteiro); Produção: Scott Stuber e Vince Vaughn; Co-produção: Jeremy Garelick e Jay Lavender; Produtores Associados: Victoria Vaughn e John Isbell; Produção Executiva: Peter Billingsley; Trilha Sonora: Jon Brion; Direção de Fotografia: Eric Edwards; Montagem: Dan Lebental e David Rosenbloom; Seleção de Elenco: Juel Bestrop e Jeanne McCarthy; Design de Produção: Andrew Laws; Direção de Arte: David Sandefur; Cenografia: Daniel B. Clancy; Figurinos: Carol Oditz; Maquiagem: Chelo, Dominic Mango e Suzi Ostos; Som: Cameron Frankley, Steve Pederson e Brad Sherman; Efeitos Sonoros: Jason W. Jennings, Randy Kelley, Ai-Ling Lee e Jon Michaels; Efeitos Especiais: John D. Milinac; Efeitos Visuais: Thomas J. Smith.

Classificação:
%

Mergulho Radical

Mergulho Radical (Into The Blue, EUA, 2005 – 110 min.)

Cartaz: Aqui

Jared (Paul Walker) é um mergulhador, que dá aulas para turistas enquanto corre atrás de seu grande sonho: encontrar um navio afundado e se garantir para o resto da vida. Nessa empreitada, conta com o apoio da apaixonada Sam (Jéssica Alba). Um belo dia, um velho amigo de Jared, Bryce (Scott Caan), um advogado seboso e bem-intencionado, aparece com uma nova namorada (Ashley Scott) para curtir umas férias; quando saem para pescar em alto-mar, o grupinho se depara com um avião afundado, recheado de cocaína e sinais claros de que um navio antigo, com um tesouro enorme também está na área. Com a cobiça em alta, os rapazes têm que enfrentar os traficantes que querem a droga de volta e um caçador de tesouros rival (Josh Brolin).
Pela sinopse, já dá para se perceber um dos problemas graves da produção, um distúrbio de múltipla personalidade. O filme não se define como aventura de caça ao tesouro, policial, romance ou suspense. Atira para todos os lados ao mesmo tempo e acarreta quebras de ritmo acentuadas; quando uma linha está se desenvolvendo bem, é imediatamente descartada para focar em outra ou retomar alguma que ficou para trás. E a atenção do espectador fica um pouco à deriva, se me permitem o trocadilho.
Os personagens, principalmente os heróis, são da mesma forma inconstantes. Em um momento, agem de modo sensato e inteligente para no minuto seguinte fazerem algo incrivelmente estúpido; o que faz todo o sentido para o roteiro, mas prejudica a identificação do espectador e torna a experiência ainda mais passiva do que de costume. O cinema é uma arte passiva por excelência, onde a maior parte da ação do espectador é mental e mais ainda emocional. Quando alguma dessas duas pernas falha, manter o interesse se torna mais difícil.
No caso, o diretor preferiu ir para a linha do visual. A escolha de Jéssica Alba e Paul Walker como protagonistas não foi por acaso. Alba é sem dúvida nenhuma uma beldade como poucas; para melhorar, seu personagem é o sonho molhado, literalmente, de qualquer homem solteiro e que não tem muitas oportunidades de sucesso com o sexo oposto, embora como atriz seja excelente bióloga marinha. Seu namorado é praticamente um vagabundo e um sonhador incorrigível; e para ela tudo está lindo, “desde que você esteja feliz, querido.” Que homem não gostaria de ouvir isso? E ainda ter uma gata como ela ao seu lado, sorrindo e ronronando o tempo todo?
Walker, por sua vez, se dá bem com um personagem raso, ingênuo e sem muito o que fazer além de desfilar sem camisa, sorrir, brilhar seus olhos verdes e ter mudanças bruscas de personalidade durante o desenvolvimento da história, sendo o principal responsável pelas tiradas inteligentes e ações incrivelmente idiotas que empurram a trama para seu final.
E o visual, no geral, é muito bom. Stockwell, o diretor, tem um bom olho e preparou muitas lindas cenas externas e submarinas, estas de notória dificuldade técnica e bem realizadas, contando com muitos closes dos corpinhos enxutos de Alba, Scott (a Caçadora da série de TV “Birds of Prey”, baseada no universo de Batman e que fez relativo sucesso nos anos 90) e Walker. Apesar de que todos aparentemente possuem tanques de oxigênio no lugar de pulmões; todo mundo fica períodos enormes embaixo d’água e tudo bem. Quem se importa com lógica? Ainda, a estética das lutas submarinas remete a séries antigas de televisão, como “O Homem do Fundo do Mar” e “Viagem Submarina”, com o auge sendo uma luta com um tubarão. Risível.
No mais, um bom trabalho de Josh Brolin e seu bigode (do mesmo jeito que seu pai James, o protagonista de “Horror em Amityville”, de 1979, já comentado aqui, gostava de atuar com a barba), como o rival de Jared e uns poucos momentos de tensão, em meio a correrias sem rumo e trama esquizofrênica. No geral, um filme divertido, leve e que não dura mais do que cinco minutos depois de rolarem os créditos. Não se poderia esperar mais e serve direitinho como passatempo.

Elenco: Paul Walker (Jared), Jessica Alba (Sam), Scott Caan (Bryce), Ashley Scott (Amanda), Josh Brolin (Bates), James Frain (Reyes), Tyson Beckford (Primo), Dwayne Adway (Roy), Javon Fraser (Danny), Chris Taloa (Quinn), Peter Bowleg Jr. (Jake), Clifford McIntosh (Kash), Adam Collins (Raolo), Dan Ballard (Scuba Bob), Arthur Thompson (Jo-Jo), Samantha Lamb (Garota de Biquini Brasileiro), Ramon Saunders (Tec-9).

Direção: John Stockwell; Roteiro: Matt Johnson; Produção: David Zelon; Co-produção: Brandon Birtell e Rick Dallago; Produtor Associado: Erin Mast; Produção Executiva: Louis G. Friedman, Peter Guber, Matt Luber e Ori Marmur; Trilha Sonora: Paul Haslinger; Direção de Fotografia: Shane Hurlbut; Montagem: Nicolas de Toth e Dennis Virkler; Seleção de Elenco: Sarah Finn e Randi Hiller; Design de Produção: Maia Javan; Direção de Arte: David F. Klassen; Cenografia: Les Boothe; Figurinos: Leesa Evans; Maquiagem: John R. Bayless, Bridget Cook e Tarra D. Day; Efeitos de Maquiagem: Leo Corey Castellano; Som: Kelly Cabral, Paul Timothy Carden, Jason King, Brad Sherman, Laren Stephens, Jon Taylor e Wade Wilson; Efeitos Sonoros: Thomas O’Neil Younkman e Wade Wilson; Efeitos Especiais: Matt Kutcher, Andrew Miller e Doug Passarelli; Efeitos Visuais: Ray McIntyre Jr., Dan Novy, Marlo Pabon, Payam Shohadai e William Mesa.

Classificação:
%%

Quarta-feira, Junho 11, 2008

Superbad - É Hoje

Superbad – É Hoje (Superbad, EUA, 2007 – 118 min.)

Cartaz:
Aqui

Dois amigos, Seth (Jonah Hill) e Evan (Michael Cera), se vêem no final de suas vidas escolares como colegiais; a faculdade está batendo à porta de ambos. A longa amizade pode se encerrar, já que Evan e Seth foram aprovados em locais diferentes. Para não deixar passar em branco, os dois, com a ajuda da outra perna do tripé, Fogell (Christopher Mintz-Plasse) e sua identidade falsificada, tentam comprar bebida alcoólica para abastecer a festa de encerramento dada pela bela Jules (Emma Stone), lugar onde a princesa de Evan, Becca (Martha MacIsaac) por acaso também estará. Só que muita confusão espera os três amigos em sua cruzada pela perda da virgindade... E para encontrar o amor.
Mais uma produção da patota liderada por Judd Apatow (de “Ligeiramente Grávidos” e “O Virgem de 40 Anos”) e que ajudou a consolidar o status de renovadores do gênero em Hollywood.
Centrada no universo familiar dos nerds e encerrando (espero) uma trilogia, a trama simples e movimentada tem muito sabor de nostalgia, pelas situações típicas das comédias adolescentes dos anos 80 e é mais indicada para o público perto ou passando pouco dos trinta anos, da mesma forma dos outros dois sucessos. Deixando o roteiro nas mãos de Seth Rogen e Evan Goldberg e ficando apenas com a produção desta vez, fica claro que o toque de Apatow faz falta, pois o desenvolvimento dos personagens e das situações passa a impressão de ficar solto, sem um senso maior de continuidade e uma indigesta apelação para a pieguice. Além disso, grande parte dos diálogos – normalmente um dos pontos fortes do time – soa artificial e auto-indulgente, com jeito de piada interna, talvez pela intenção autobiográfica latente. Para uma comédia, essas características diluem a identificação, principalmente pela dupla de policiais amalucados, vivida por Rogen, sempre simpático e pelo chatíssimo Bill Hader; para compensar, a descoberta de Mintz-Plasse é uma boa surpresa e acaba sendo um dos pilares do filme, com seu jeitão doce e esquisito.
Ainda na parte choca da cerveja, mais uma vez a duração é excessiva e aqui acaba por comprometer o resultado final; quase duas horas é muito tempo para agüentar uma piada esticada. Apatow parece que sofre dores físicas excruciantes para cortar cenas e enxugar suas tramas. E a direção convencional e pouco inspirada de Mottola é fiel ao estilo do chefe de “apontar e filmar”, sem se preocupar muito com composição de quadros ou inovar nos ângulos; parece um estudante de cinema fazendo seu projeto de formatura e usando a galera para preencher os papéis. Pela escolha do gênero, já tão desgastado justamente pela inexorável aplicação de fórmulas e que dava a impressão de que os envolvidos estavam interessados em renovar e apresentar a uma nova geração, teria sido bom um pouco mais de cuidado.
Por outro lado, risadas genuínas – e infelizmente escassas – são geradas com Plasse e seu hilário “McLovin” e algumas das conversas absurdas de Seth e Evan, com bastante profanidade e ingenuidade, tão autênticas que fica difícil não curtir; quem já não ficou com um melhor amigo falando besteiras sem parar envolvendo mães, colegas gostosas e birita? A abertura também é um achado, muito criativa e que dá o tom retrô do restante do filme, com uma aparência de “negativo gasto” muito bem realizada pela boa fotografia e reforçada pelos figurinos e o bigode inacreditável de Rogen.
No todo, um filme mediano, que conta com alguns bons momentos e um tanto decepcionante; destacou-se mais pela mediocridade assustadora dos concorrentes do que por ser uma experiência super-legal de assistir. Para quem viu os outros dois, é um claro sinal de desgaste; a patota tem que se reunir, parar e pensar com muito cuidado nas próximas empreitadas. Talento existe, o que falta é um pouco mais de humildade, olhar menos para o próprio umbigo e lembrar que o público é que tem que gostar e dar risadas com os filmes que eles fazem.

Elenco: Jonah Hill (Seth), Michael Cera (Evan), Christopher Mintz-Plasse (Fogell), Emma Stone (Jules), Martha MacIsaac (Becca), Aviva (Nicola), Seth Rogen (Oficial Michaels), Bill Hader (Oficial Slater), Joe Lo Truglio (Francis), Kevin Corrigan (Mark), Roger Iwami (Miroki), Stacy Edwards (Mãe de Evan).

Direção: Greg Mottola; Roteiro: Seth Rogen e Evan Goldberg; Produção: Judd Apatow e Shauna Robertson; Co-produção: Dara Weintraub; Produção Executiva: Seth Rogen e Evan Goldberg; Trilha Sonora: Lyle Workman; Direção de Fotografia: Russ Alsobrook; Montagem: William Kerr; Seleção de Elenco: Allison Jones; Design de Produção: Chris L. Spellman; Direção de Arte: Gerald Sullivan; Cenografia: Bob Kensinger; Figurinos: Debra McGuire; Maquiagem: Merribelle A. Anderson, Kimberly Greene, Lana Horochowski e Melissa A. Yonkey; Efeitos de Maquiagem: Robert Hall; Som: George H. Anderson, Marc Fishman e Tony Lamberti; Efeitos Sonoros: Cindy Marty; Efeitos Especiais: Matt Kutcher e Bob Stoker.

Classificação:
%%%

Ligeiramente Grávidos

Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, EUA, 2007 – 129 min.)

Aviso: o texto abaixo contém spoilers; se ainda não assistiu o filme, leia tudo por sua própria conta e risco.

Cartaz:
Aqui

Um rapaz perto dos 30 anos, Ben (Seth Rogen), não quer mais muito da vida do que curtir com seus amigos folgados, montar um site de cenas de filmes onde as atrizes mostram nudez e fumar maconha. Um dia, ele vai a uma danceteria onde encontra a bela Alison (Katherine Heigl), que comemora com a irmã Debbie (Leslie Mann) uma promoção no trabalho em uma produtora de TV. Lá pelas tantas e devidamente de cara cheia, Alison e Ben transam. Depois de algumas semanas, Ben recebe uma ligação da mocinha, que solta a bomba: ela está grávida. Com um sentimento de culpa pela confusão, o rapaz tenta de tudo para se entender com a futura mamãe.
Uma comédia interessante que consegue misturar sutileza, ingenuidade e piadas grosseiras, sem entornar o caldo. Grande parte do atrativo se deve à escolha do par de protagonistas, atores jovens e com timing cômico afiado.
Rogen vai se consolidando como uma das forças modernas da comédia americana, de longa tradição de pessoas com carisma, empatia com o público e respostas sarcásticas na ponta da língua. Depois de “O Virgem de 40 Anos”, do mesmo diretor e onde fez um papel secundário, ele agarrou a oportunidade de ser o astro com vontade e não decepciona. Com seu tipo físico avantajado, voz de Fred Flintstone e risada contagiante, Rogen consegue conquistar e reconquistar a audiência com seu perdedor simpático e gentil sem grande esforço, colocando pitadas de grossura e falta de tato nas horas certas.
Do outro lado, Heigl demonstra estar além da beleza e segura bem as pontas de um papel que poderia se tornar chato com facilidade, levando bem as suas cenas e mostrando boa química com seu par. Apesar de parecer estar com o sutiã cimentado, ele não sai nem por decreto do Congresso americano; malditos advogados e seus contratos!
Apostando no desenvolvimento gradual dos personagens, o roteiro leva até o fim sua proposta de apresentar “gente como a gente” no centro do palco e utiliza a gama de bons personagens secundários para discutir vários aspectos da vida dos solteiros de 30 e poucos anos de hoje em dia. A evolução de Ben e Alison durante o desenrolar da trama é crível e não toma o caminho fácil do que chamo de “cheirada de pirlimpimpim”, muito usada nos filmes atuais onde os personagens se transformam de uma hora para outra. De uma transa etílica nada incomum o casal vai aos poucos se aproximando, criando ligações um com o outro, buscando pontos em comum para ficar juntos, ainda que seja preciso acreditar que uma mulher como Alison (bonita, com boa situação financeira e profissional) iria forçar uma situação com alguém como Ben, tão diferente dela, em tempos tão individualistas. Acho que é aí que entra aquele viés ingênuo que citei acima...
Outra coisa que me chamou a atenção é o estado em que chegou a sociedade americana, com suas preocupações exacerbadas com aparência e status. A maior parte dos argumentos que as pessoas colocam como empecilhos para a gravidez de Alison e se juntar com o pai de seu futuro bebê giram em torno de engordar, que ele não ganha dinheiro, que uma criança pode atrapalhar a carreira dela e que envelhecer é o mais próximo do inferno que se pode chegar. A paranóia com gordura, grana e idade rende cenas quase constrangedoras com os chefes da protagonista, sua irmã e os amigos de Ben.
Aliás, Debbie ganha o troféu limão, sendo a personagem mais mala do filme; ela enche o saco com tudo e faz da vida do seu marido Pete (Paul Rudd, sempre simpático e divertido) um inferno, com desconfianças e grosserias. Num certo ponto da trama, o pobre coitado tem que esconder um prazer seu que ao ser revelado deixa o público com cara de tacho. Uma coisinha tão insignificante quanto brincar de manager de time de beisebol tem que ser escondido de sua mulher? Ou ainda, assistir blockbusters no cinema não pode ser feito sozinho? Francamente.
As fartas referências a fatos atuais são bacanas, mas dão um risco de o filme ficar precocemente datado. Será que irão se lembrar, daqui a cinco anos, de “Homem-Aranha 3”? De quem foi Ryan Seacrest, Jessica Alba ou Jessica Simpson? De quem é James Franco ou James Gandolfini?
Mas os defeitos – poucos – de roteiro e duração um pouco exagerada são fartamente compensados pela simpatia do casal e, principalmente, a inocência das piadas. Tem que se destacar que praticamente todo mundo do elenco usa suas oportunidades para brilhar, sem medo e a participação de Harold Ramis (o Egon de “Caça-Fantasmas”) é a melhor de todas como o pai; sua conversa desencanada com o filho desesperado é de chorar de rir, bem como o recado deixado no celular do médico escolhido por Alison, que, claro, some sem deixar vestígio quando chega a hora do parto.
O diretor Apatow mantém seu jeito simples e direto de filmar, sem quase nenhum movimento de câmera ou ângulo estiloso, deixando seus atores à vontade, com um pouco de exagero nesse aspecto, e a trama se desenrolar sozinha. Só se espera que ele consiga se desenvolver mais, pois seus filmes estão ficando com cara de sitcom de TV e isso não é bom. Um pouco mais de ousadia, controle visual e da narrativa cairia bem e valorizaria ainda mais seus bons personagens e histórias divertidas e interessantes. Simples não é necessariamente sinônimo de ser comum; para chamar as pessoas aos cinemas, uma pitada de estilo não vai doer nada. Senão, para que gastar dinheiro indo ao cinema? Basta esperar sair em DVD e assistir em casa.
Uma das boas surpresas do ano passado, altamente recomendável.

Elenco: Seth Rogen (Ben Stone), Katherine Heigl (Alison Scott), Paul Rudd (Pete Scott), Leslie Mann (Debbie Scott), Jason Segel (Jason), Jay Baruchel (Jay), Jonah Hill (Jonah), Martin Starr (Martin), Charlyne Yi (Jodi), Maude Apatow (Charlotte), Iris Apatow (Sadie), Joanna Kerns (Mãe de Alison), Harold Ramis (Pai de Ben), Alan Tudyk (Jack), Kristen Wiig (Jill), Bill Hader (Brent), Ken Jeong (Dr. Kuni), Craig Robinson (Porteiro), Tim Bagley (Dr. Pellagrino), Loudon Wainwright (Dr. Howard), Adam Scott (Enfermeiro), J.P. Manoux (Dr. Ângelo), Mo Collins (Médica), Steven Brill (Chefe de Ben), Ana Mercedes (Maria), Stormy (Dançarina Exótica).
Pontas de Jéssica Alba, Steve Carell, Andy Dick, James Franco, Eva Mendes, Ryan Seacrest e Dax Shepard.

Direção: Judd Apatow; Roteiro: Judd Apatow; Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson e Clayton Townsend; Produção Executiva: Evan Goldberg e Seth Rogen; Trilha Sonora: Joe Henry e Loudon Wainwright; Direção de Fotografia: Eric Alan Edwards; Montagem: Craig Alpert e Brent White; Seleção de Elenco: Allison Jones; Design de Produção: Jefferson Sage; Direção de Arte: Lauren E. Polizzi; Cenografia: Chris L. Spellman; Figurinos: Debra McGuire; Maquiagem: Ann Pala, Thomas Real e Nancy Tong; Efeitos de Maquiagem: Matthew W. Mungle; Som: George H. Anderson, Scott Millan e David Parker; Efeitos Sonoros: Cindy Marty; Efeitos Visuais: Richard Malzahn e Paulina Kuszta.

Classificação:
%%%%

O Virgem de 40 Anos

O Virgem de 40 Anos (The 40-Year-Old Virgin, EUA, 2005 – 133 min.)

Cartaz: Aqui

Andy (Steve Carell) é um cara quieto e tranqüilo que leva sua vida em uma rotina bastante regrada. Vai de bicicleta para o trabalho, não incomoda ninguém, curte seus bonecos de ação (super-heróis, personagens de séries de TV e afins) e faz parte da paisagem. Um dia, alguns colegas da loja onde Andy trabalha o convidam para jogar pôquer; sem querer, o coitado acaba deixando escapar que, mesmo com 40 anos, ainda é virgem! Estarrecidos, Cal (Seth Rogen), David (Paul Rudd) e Jay (Romany Malco) fazem de tudo para “ajudar” o novo amigo a desencantar. Só que tudo que Andy quer é conquistar a bela balzaquiana Trish (Catherine Keener), tristinha e querendo um amor de verdade...
Uma ótima comédia, leve e espirituosa. Estréia de Apatow na direção de longas, depois de uma bem-sucedida carreira como roteirista e produtor de séries de TV, conta com alguns trunfos, muito bem-explorados.
Temos um elenco afiado, recheado de atores saídos do universo de comédia de teatro e de séries cômicas, tirando o máximo de uma premissa simples e aproveitando cada oportunidade para brilhar e cada um tem a sua, até os coadjuvantes são ótimos com destaque para o vendedor indiano e o hilário “Date-O-Rama”, uma espécie de rodízio de pequenos primeiros encontros, rendendo as melhores conversas do filme; um roteiro com diálogos espertos e divertidos, com um senso de realidade que é impossível de não se ver sorrindo com o reconhecimento, culpado, de muitas de nossas próprias inseguranças e ações estúpidas no que diz respeito a relacionamentos e sexo; e, por fim, uma identificação enorme com o protagonista, nós ficamos torcendo para ele se dar bem.
O filme usa a seu favor a familiaridade da situação, com os amigos cheios de boas intenções e armando situações absurdas para o coitado do Andy sofrer. A simpatia do quarteto principal apaga a impressão de episódios consecutivos, pela estrutura esquemática da trama, parecida com uma sucessão de esquetes de programa de humor, graças também à segurança do diretor na condução dos atos. Existe um crescendo dos personagens, que saem de meros estereótipos para pessoas tridimensionais. À medida que se desenrolam os sucessivos infortúnios de Andy, vemos seus colegas se tornarem genuinamente seus amigos. Os caras acabam se importando uns com os outros e isso aparece na tela. De um começo onde Andy é tratado como um bicho esquisito até o final, a amizade entre os quatro se solidifica cada vez mais.
Desde aqui, porém, Apatow já demonstrava sua tendência a esticar o rabo do gato. A premissa não comporta mais de duas horas de projeção e fica uma sensação de que só se quer prolongar o sofrimento de Andy para satisfazer instintos masoquistas da platéia; algumas seqüências não têm uma função para a trama principal, estão lá apenas para que a gente se acabe de rir da inépcia ingênua do protagonista e dos seus amigos frente a coisas simples de relacionamentos. Nessa categoria se encaixa a mocinha bêbada, a prostituta com uma surpresinha, a cena da depilação (que infelizmente é de rolar de rir, embora totalmente inútil), os primeiros encontros com Trish, a ida com a filha dela até a clínica, o famigerado diálogo “eu sei que você é gay porque”... Enfim, uma enrolação total que serve para causar risos, não pensem que não são cenas engraçadas, mas não passam de gordura para deixar os atores se divertirem e se salvam por pouco, graças a estes, de deixar a audiência de saco cheio; um pouco mais de frieza na sala de edição teria deixado o filme memorável.
Mas o melhor fica para a cena final, realmente sensacional e que dá um encerramento com brilho, pela naturalidade, o inusitado e ser completamente diferente do que se poderia esperar, pelo que foi mostrado nas quase duas horas anteriores. Não deixe de assistir até os créditos terminarem, vale cada minuto.
Uma ótima pedida e que deixa o gênero com a cabeça fora-d´água depois de tantas atrocidades imbecis nos últimos anos.

Elenco: Steve Carell (Andy), Catherine Keener (Trish), Paul Rudd (David), Romany Malco (Jay), Seth Rogen (Cal), Elizabeth Banks (Beth), Leslie Mann (Nicky), Jane Lynch (Paula), Gerry Bednob (Mooj), Shelley Malil (Haziz), Kat Dennings (Marla), Jordan Masterson (Mark), Chelsea Smith (Julia), Jonah Hill (Cliente do E-Bay), Erica Vittina Phillips (Jill), Marika Dominczyk (Bernadette), Mindy Kaling (Amy), Mo Collins (Gina), Jazzmun (Prostituta), Miki Mia (Depiladora).
E muitos outros, que eu não tive saco de ficar copiando!!!

Direção: Judd Apatow; Roteiro: Judd Apatow e Steve Carell; Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson e Clayton Townsend; Co-produção: Seth Rogen; Produtor Associado: Andrew J. Cohen; Produção Executiva: Steve Carell e Jon Poll; Trilha Sonora: Lyle Workman; Direção de Fotografia: Jack N. Green; Montagem: Brent White; Seleção de Elenco: Marla Galin e Allison Jones; Design de Produção: Jackson De Govia: Direção de Arte: Tom Reta; Cenografia: K. C. Fox; Figurinos: Debra McGuire; Maquiagem: Ann Pala e Thomas Real; Som: George H. Anderson, Gregg Landaker e Steve Manslow; Efeitos Sonoros: Cindy Marty; Efeitos Especiais: William H. Schirmer e Richard Stutsman; Efeitos Visuais: Shaina Holmes.

Classificação:
%%%%

Sexta-feira, Maio 23, 2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull / Indiana Jones 4, EUA, 2008 – 124 min.)

Cartaz:
Aqui

Cartazes Alternativos:
Aqui e Aqui

Mais velho e mais sábio, Indy (Harrison Ford) se junta a Mutt Williams (Shia LeBoeuf) e reencontra Marion (Karen Allen, murchinha) na busca por levar de volta ao seu local de origem uma estranhíssima caveira de cristal, descoberta nas selvas do Peru pelo professor Oxley (John Hurt, apático e babão), um antigo colega. Interessados na história corrente, de que quem devolver a caveira dominará os poderes do templo a que esta pertence, dentro da também lendária El Dorado, os russos estão atrás do arqueólogo aventureiro, liderados pela agente secreta Irina Spalko (Cate Blanchett), fria e impiedosa..
Dezenove anos. É muito tempo criando expectativa e se chegar em um roteiro decente para fazer jus ao legado de um dos melhores personagens a surgirem em Hollywood nos últimos trinta anos é o mínimo que se espera. Temos más noticias nesse particular. O filme simplesmente não está à altura.
Justiça seja feita, o tempo não passou para Harrison Ford, extremamente confortável dentro do papel. Ele vai muito bem em todas as suas cenas, mesmo as de ação, já que o nosso astro está beirando os sessenta e cinco anos, com segurança invejável e a verve irreverente que fez a fama do aventureiro. Tendo que lidar com um roteiro samba do crioulo doido criado por George Lucas e polido dentro do possível pelo competente David Koepp (responsável pelo primeiro “Homem-Aranha” e “Quarto do Pânico”), Ford se desdobra para tornar melhores os diálogos sofríveis e buscar o interesse do espectador ao contracenar com os piores coadjuvantes de toda a série.
A performance mais constrangedora é a de Cate Blanchett; seu personagem, a agente secreta russa Irina Spalko, não tem atrativos suficientes para ser a vilã principal, pois a atriz não se esforça em nada para se destacar além da caracterização física – com um sotaque russo tão forçado que chega a ser risível – e não se justifica a presença russa como antagonista, que não seja o período retratado no filme, 1957 e marco inicial do auge da paranóia anticomunista e da Guerra Fria. É fato sabido e comprovado que Hitler era tarado por ocultismo e fazia todo o sentido os nazistas correrem o mundo atrás de relíquias religiosas e sobrenaturais. Agora, os comunistas faziam de tudo para negarem a existência de qualquer coisa sobrenatural, decretaram a morte das religiões, tinham o pragmatismo como lema principal. A tentativa patética de repetir o esquema de vilões dos exemplares anteriores mais bem-sucedidos (“Caçadores” e “Cruzada”) se revela, assim, como um tiro no pé.
A conseqüência da forçada de barra é a temperatura glacial das cenas de ação. Não há tensão suficiente, em nenhum momento tememos pela sorte de Indy e seus companheiros – o melhorzinho é Shia LeBoeuf e seu motoqueiro, comprovando o talento e carisma do ator; nem mesmo Karen Allen se salva. Ainda, para deixar as coisas mais frouxas, o uso pesado de CGI (computação gráfica) até mesmo para os cenários, compromete o senso de realismo e perigo que os outros três filmes tinham de sobra, dando margem a exageros dignos de filmes da pior fase de James Bond, como por exemplo na perseguição na floresta – com direito a uma ceninha ridícula com Mutt seguindo “à la Tarzan” Indy e os outros; as cachoeiras; as formigas gigantes; e o final péssimo e pretensioso.
Tudo isso deve ser creditado na conta de George Lucas. Como sempre, um escritor medíocre, impôs um título quilométrico e idiota, além de uma trama rocambolesca e sem rumo onde até seres extraterrestres ou de outras dimensões ou sei-lá-o-quê entraram no balaio de gatos. Muito mais preocupado em demonstrar sua excelência técnica nos efeitos especiais, como de hábito excelentes, Lucas podou ou encurtou todas as tentativas de trazer o Indy clássico e quis “atualizar” para a nova geração – com síndrome de deficiência de atenção e necessitada de uma guinada a cada cinco minutos senão dorme ou vai embora da sala de cinema – o que não precisava.
O que deixava os outros filmes tão bons era exatamente a humanidade do personagem, expressa de diversas formas e alguém preocupado com questões filosóficas importantes (a Arca da Aliança e o Santo Graal) e em proteger quem não podia fazê-lo sozinho (as crianças escravizadas). Do jeito que ficou a trama, não precisava ser Indiana Jones; qualquer um no lugar dele ia dar no mesmo, ficou genérico, um rótulo para atrair mais público. Retratado como meramente um herói que reage, toda a inteligência, pensamento rápido e capacidade de improvisação do arqueólogo ficaram em segundo plano. Indy não pesquisa mais, não se mantém debaixo do radar, não se preocupa com sutilezas.
Uma decepção do começo ao fim e o pior, disparado, de toda a série.
Depois de tudo isso, ainda vale a pena ir assistir? Vale sim! E Spielberg, sempre competente, mantém um bom ritmo e conseguiu inserir muitos elementos que tornaram clássicos os outros filmes, como o chicote, o chapéu, a cena com a sombra virando Indy, o logo da Paramount virando elemento do quadro, a trilha sonora maravilhosa de John Williams, a montagem esperta de Michael Kahn, o visual envelhecido da fotografia, os deslocamentos no mapa, aparições-surpresa de eventos mostrados anteriormente: um biscoito fino com sabor de nostalgia, agradável como usar um sapato velho. Ou seja, você gosta do filme mesmo sem querer gostar.
E, convenhamos, memória afetiva à parte, um exemplar apenas mediano de Indiana Jones vale por dez, em se falando de diversão e entretenimento.

Elenco: Harrison Ford (Henry “Indiana” Jones Jr.), Shia LeBoeuf (Mutt Williams), Karen Allen (Marion Ravenwood), Cate Blanchett (Agente Irina Spalko), Ray Winstone (George “Mac” McHale), John Hurt (Professor Oxley), Jim Broadbent (Reitor Charles Stanforth), Alan Dale (Coronel Ross).

Direção: Steven Spielberg; Roteiro: George Lucas e Jeff Nathanson (história) e David Koepp (roteiro), baseados em personagens criados por Phillip Kaufman e George Lucas; Produção: Frank Marshall; Co-produção: Denis L. Stewart; Produção Executiva: George Lucas e Kathleen Kennedy; Trilha Sonora: John Williams; Direção de Fotografia: Janusz Kaminski; Montagem: Michael Kahn; Seleção de Elenco: Debra Zane; Design de Produção: Guy Dyas; Direção de Arte: Mark W. Mansbridge; Cenografia: Larry Dias e Alyssa Winter; Maquiagem: Felicity Bowring, Rose Chatterton, Sasha Cummins, John Jack Curtin, Ken Diaz, Maggie Fung e Thom Gonzalez; Efeitos de Maquiagem: John Rosengrant e Ryan McDowell; Som: Ben Burtt, Richard Hymns e Christopher Scarabosio; Efeitos Sonoros: Ben Burtt, Christopher Scarabosio, Timothy Nielsen e Addison Teague; Efeitos Especiais: Daniel Sudick e Lindsay McGowan; Efeitos Visuais: Pablo Helman.

Classificação:
%%

O Homem de Ferro

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008 – 126 min.)

Cartaz:
Aqui

Tony Stark (Robert Downey Jr.) é um gênio inventor, com seu foco na criação de armas cada vez mais sofisticadas e poderosas. Depois de demonstrar seu mais novo produto no Afeganistão, o comboio do Exército que o transporta é violentamente atacado, resultando na sua captura por rebeldes afegãos e diversos estilhaços de uma bomba, ironicamente criada por ele mesmo, se aproximando inexoravelmente de seu coração para matá-lo. Com a ajuda de outro cientista capturado, Yinsen (Shaun Toub), Tony consegue manter-se vivo graças a um eletroímã que impede os estilhaços de percorrerem seu caminho fatal. De volta aos EUA, Tony se vê tolhido em sua tentativa de parar de fabricar armas pelo seu sócio, o insidioso Obadiah Stane (Jeff Bridges) e resolve aprimorar a armadura que possibilitou sua fuga se tornando o Homem de Ferro, na busca por proteger as pessoas comuns daqueles que usam os produtos da Stark Enterprises.
A julgar por este filme aqui, não poderia ser mais auspicioso o início do Marvel Estúdios. As criações de Stan Lee são ótimas – tanto que muitos dos personagens criados por ele na década de 60 continuam a ser publicados até hoje – e a editora decidiu tomar à frente e produzir ela mesma as adaptações, depois de verem os outros conglomerados ganharem rios de dinheiro com o Quarteto Fantástico, os X-Men, o Homem-Aranha e, vá lá, o Demolidor. Ao tomar o controle criativo e financeiro, era 8 ou 80; sucesso total ou falência instantânea.
Preocupados com essa aposta, a Marvel selecionou cuidadosa e surpreendentemente sua primeira empreitada; o personagem escolhido foi o Homem de Ferro.
Um personagem emblemático do período da Guerra do Vietnã, Tony Stark é um ser humano fascinante. Sua criação foi uma resposta ao aspecto econômico e político do conflito, onde os EUA entraram e estavam perdendo soldados aos milhares. Numa prova que a História se repete, os EUA estão, novamente, envolvidos em uma guerra na Ásia, por motivos obscuros e estão perdendo soldados aos milhares, sem contar os habitantes do Iraque que morrem como moscas no meio do fogo cruzado.
Um homem extremamente criativo e genial, Stark possui o maior inimigo em si mesmo; nos quadrinhos, desceu ao fundo do poço e se recuperou mais de uma vez por causa do alcoolismo. Sua criação maior, a armadura do Homem de Ferro, representa simbolicamente a carapaça que o ser humano tem que vestir para conseguir enfrentar suas agruras. Mas no final das contas, o que conta mesmo é quem está por trás desse escudo, a personalidade e força de caráter do ser humano, sem as quais nenhuma armadura ou arma serve para nada.
Atualizando a origem do personagem e trazendo-o para o século XXI, os produtores buscaram criticar, ao meu ver, a postura belicista e pouco inteligente dos EUA nos últimos anos, desde o 11 de Setembro.
Porém, me deixo levar por digressões. Vamos ao filme, né?
Uma aventura com “A” maiúsculo. “Homem de Ferro” tem um ótimo ritmo, um protagonista interessante, efeitos de primeira linha e diálogos efervescentes com humor e ironia.
O diretor Jon Favreau, em sua primeira superprodução, seguiu os passos marcados por “Batman Begins”: em vez de quatrocentos vilões esquisitos e coloridos, apenas um e usando um tom altamente realista, onde as incongruências e fantasias ficam mais críveis e verossímeis (será que alguém acredita numa armadura como essa?); a trama apóia-se muito mais nos personagens, suas interações e personalidades; cenas de ação orgânicas, de tirar o fôlego e que empurram a história em frente ao invés de simplesmente encher lingüiça e justificar o orçamento de efeitos especiais. O qual foi muito bem gasto, diga-se de passagem; a montagem da armadura vermelha e dourada me deu um nó na garganta de felicidade de tão boa que ficou, para um fã antigo de quadrinhos como eu. Em suma, um roteiro polido, enxuto e direto.
O pilar de sustentação encontra-se em Robert Downey Jr. Dificilmente um nome que seria lembrado para protagonizar um arrasa-quarteirão de verão, o ator dá um show com seu retrato de Tony Stark. Por suas peripécias de dezenas de prisões e reabilitações por causa das drogas, ele dá credibilidade à transformação interna do inventor, que passa de playboy inconseqüente e mulherengo a um pacifista e preocupado com a situação das vítimas de suas armas, reforçado pela condição física peculiar de ser obrigado a usar um marca-passo turbinado. A escolha dele traz peso ao personagem e ao filme, além de uma forma física invejável e seu timing cômico estar a todo vapor.
Contudo, é um filme de origem, os holofotes estão todos centrados no personagem de Downey e isso faz com que praticamente todos os coadjuvantes estejam com problemas de falta de profundidade, bidimensionais. As motivações e personalidade deles ficam em segundo plano e as ações cometidas por Obadiah Stane, defendido com garra por Jeff Bridges (em boa caracterização), por exemplo, ficam frouxas e a única explicação que se pode chegar é “ele é mau e pronto, ora bolas!”.
A que consegue se dar um pouco melhor é Gwyneth Paltrow como Pepper Potts, secretária particular de Stark e sua “quase-namorada” – alguém pode me explicar como é que essa magrelinha insípida conseguiu ficar gostosa? Deve ser a maternidade das frutas – que protagonizam a maioria dos momentos mais divertidos da trama, com seus diálogos “à la Moneypenny-Bond”. Atenção ainda para a participação especial do britânico Paul Bettany (de “O Código da Vinci” e “Wimbledon”) como a voz do supercomputador Jarvis – os fãs de super-heróis vão se lembrar que esse era o nome do mordomo da mansão dos Vingadores, formado inicialmente por Homem de Ferro, Hulk, Thor, Vespa e Homem-Formiga.
É que se destacar ainda a trilha sonora roqueira, com o clássico “Iron Man” do Sabbath e outros petardos de AC/DC e Suicidal Tendencies; a montagem precisa de Dan Lebental, no espírito metálico do herói, sem epilepsia – leia-se sem cortes rapidíssimos e câmera tremendo; e a boa fotografia de Matthew Libatique, que colaborou muito para trazer a trama mais para mundo real, mesmo com todas as liberdades poéticas tomadas, com homens voadores e que tais.
No todo, os únicos pecados do filme são ter seus coadjuvantes tão mal desenvolvidos, além da batalha final ser meio tosca. Isso não compromete em nada a diversão, só que fica aquela impressão de podia-ter-sido-um-pouco-melhor.
Para a inevitável seqüência, dado o sucesso que está fazendo, terão que dar mais atenção para isso ou vai ficar chato; ainda mais por ter uma ceninha final, depois dos créditos, que dá água na boca.
Uma boa escolha para gastar nosso rico dinheirinho no cinema, está tão caro... Snif.

Elenco: Robert Downey Jr. (Tony Stark), Jeff Bridges (Obadiah Stane), Gwyneth Paltrow (Pepper Potts), Terrence Howard (James Rhodes), Jon Favreau (Happy Hogan), Shaun Toub (Yinsen), Faran Tahir (Raza), Sayed Badreya (Abu Bakaar), Leslie Bibb (Christine Everhart), Clark Gregg (Agente Phil Coulson), Paul Bettany (Jarvis). Participações especiais de Stan Lee e Samuel L. Jackson.

Direção: Jon Favreau; Roteiro: Mark Fergus, Hawk Otsby, Art Marcum e Matt Holloway, baseados nos personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby; Produção: Avi Arad e Kevin Feige; Produtores Associados: Eric Heffron e Jeremy Latcham; Co-produção: Victoria Alonso; Produção Executiva: Avi Arad, Stan Lee, Jon Favreau, Peter Billingsley, Louis D’Esposito e Michael A. Helfant; Trilha Sonora: Ramin Djawadi; Direção de Fotografia: Matthew Libatique; Montagem: Dan Lebental; Seleção de Elenco: Sarah Finn e Randi Hiller; Design de Produção: J. Michael Riva; Direção de Arte: Richard F. Mays e Suzan Wrexler; Cenografia: Lauri Gaffin; Figurinos: Rebecca Bentjen e Laura Jean Shannon; Maquiagem: Pierce Austin, Deborah La Mia Denaver e Jamie Kelman; Som: Christopher Boyes, Frank Eulner e Lora Hirschberg; Efeitos Sonoros: Christopher Boyes e Ken Fischer; Efeitos Especiais: Stan Winston, Shane Mahan e Daniel Sudick; Efeitos Visuais: Anthony Mabin, Edson Williams, Ben Snow, Jonathan Rothbart, John Nelson e Matthew Gratzner.

Classificação:
%%%%

Onde Os Fracos Não Têm Vez

Onde Os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men, EUA, 2007 – 122 min.)

Cartaz: Aqui

Llewelyn Moss (Josh Brolin) é um caçador empobrecido do Texas que, um dia, nota um estranho brilho no horizonte; chegando ao local, verifica que uma negociação não foi bem-sucedida: existem vários corpos e caminhonetes crivados de balas, um monte de heroína e uma mala com 2 milhões de dólares. Atordoado, o rapaz pega a mala e se manda para casa. Sem muita demora, um assassino contratado, Anton Chigurh (Javier Bardem), eficiente e com um senso incomum de honra começa a persegui-lo, seguido de perto pelo endurecido e cansado xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones).
Um petardo. E um paradoxo, ao mesmo tempo em que é um dos filmes mais comerciais já realizados por eles, é também um dos mais complexos temática e psicologicamente falando. Outra raridade no cinema dos Coen, é um dos poucos roteiros adaptados, sem ter saído de uma concepção ou idéia original, pois foi baseado em livro de Cormac McCarthy – salvo engano, é o segundo filme que eles fazem baseado em material publicado anteriormente.
O mais divertido, porém, é a utilização da estrutura clássica de gênero – uma mistura de thriller com western – e a recusa em seguir essa estrutura. Como exemplo, quando Moss volta ao local onde achou a mala, por motivos que nem vale a pena explicar, tem que assistir para apreciar a ironia, e se depara com “amigos” dos negociantes, o clichê manda que o herói dê um cacete legal nos “inimigos” e saia gingando ao pôr-do-sol. E, com a ajudazinha de um pit bull, essa expectativa é frustrada.
Aliás, o tempo todo existe essa brincadeira entre criar uma expectativa causada pela familiaridade do público com a situação e ser mostrada uma reversão do clichê ou um caminho alternativo para a solução. Isso torna a experiência toda muito interessante, em especial para quem freqüenta e gosta de cinema há um bom tempo. Ao longo da trama, isso vai acontecendo com regularidade. E quando estamos acostumados com o jogo dos Coen, o final abrupto e melancólico dá a última torcida no nosso rabo. E fecha com coerência o filme.
Esse artesanato de criação de expectativa e de frustração da mesma tem sua síntese no personagem de Javier Bardem, em uma ótima caracterização. O assassino com um cabelo chanel inacreditável é um dos mais assustadores já criados, e os fatores que o tornam tão incômodos são justamente as “qualidades” do homem. Anton Chigurh é delicado e de fala mansa. Move-se com rara precisão e é econômico nas palavras e gestos; como uma serpente, ele hipnotiza a vítima. E, fulminante, faz o que faz melhor: matar. Preferindo usar um cilindro de ar comprimido para cometer seus crimes, a determinação férrea do homem é outra coisa que impressiona. Ele não larga o osso, senhoras e senhores. Nas palavras de Carson Wells, personagem de Woody Harrelson, “melhor seria não ter se metido com ele”.
O trio de protagonistas representa, cada um, um aspecto da vida moderna. Moss é a boa intenção, a massa que é essencialmente reagente a fatores externos e quase sempre, ao tomar a atitude de ação, o faz da forma que mais prejudica a si e aos que o cerca – lembrem que de boas intenções o inferno está cheio. Chigurh é a violência em sua representação mais iconográfica: fascinante, hipnotizante, brutal e sem sentido. E o xerife é o desencanto, a certeza de que nada mais será como antes – daí o título original, não há mais país para os velhos. Só que o xerife representa também a esperança, de que do meio da merda nascerá uma flor.
Sem dúvida, o filme não é isento de defeitos. O desfecho de um dos protagonistas é de chorar de ruim, haja subversão de expectativas para engolir e a função do xerife, embora clara, fica excedente a partir do segundo ato. No fim das contas, a figura de Anton, inadvertidamente, domina a trama como um fantasma ou um espírito, sempre presente mesmo que não o vejamos com clareza. Provavelmente, essa era a intenção do roteiro. Se não era, acabou ficando assim mesmo, pela falha .
De qualquer forma, mesmo com os defeitos que possui – ou apesar deles – “Onde Os Fracos...” é de alta qualidade, com um ritmo próprio de diálogos e de progressão da trama; um filme de linguagem ousada, com fotografia e tomadas anti-convencionais, como cenas onde tudo que se vê é a biqueira da bota do personagem ou uma porta e toda a ação se desenvolve fora de quadro ou então em close, com suavidade ou com uma brutalidade sem par. Para quem já está um pouco cansado de obviedades, é uma brisa e tanto.
Tomara que os Coen façam mais filmes comerciais!

Elenco: Tommy Lee Jones (Xerife Ed Tom Bell), Josh Brolin (Llewelyn Moss), Javier Bardem (Anton Chigurh), Woody Harrelson (Carson Wells), Kelly MacDonald (Carla Jean Moss), Garrett Dillahund (Policial Wendell), Tess Harper (Loretta Bell), Stephen Root (Contratante de Wells), Beth Grant (Mãe de Carla Jean), Rodger Boyce (Xerife Roscoe Giddens), Barry Corbin (Ellis), Kit Gwin (Secretária de Bell), Gene Jones (Proprietário do Posto de Gasolina).

Direção: Ethan Coen e Joel Coen; Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen, baseados no livro de Cormac McCarthy; Produção: Ethan Coen, Joel Coen e Scott Rudin; Produtor Associado: David Dilliberto; Produção Executiva: Robert Graf e Mark Roybal; Trilha Sonora: Carter Burwell; Direção de Fotografia: Roger Deakins; Montagem: Roderick Jaynes (pseudônimo de Joel e Ethan Coen); Seleção de Elenco: Ellen Chenoweth; Design de Produção: Jess Gonchor; Direção de Arte: John P. Goldsmith; Cenografia: Nancy Haigh; Figurinos: Mary Zophres; Maquiagem: Jean Ann Black, Paul LeBlanc e Teresa Valenzuela; Som: Craig Berkey, Skip Lievsay e Greg Orloff; Efeitos Especiais: Peter Chesney, Jason Hamer e Diane Woodhouse; Efeitos Visuais: Vincent Cirelli.

Classificação:
%%%%%

Antes de Partir

Antes de Partir (The Bucket List, EUA, 2007 – 97 min.)

Cartaz: Aqui

Dois companheiros improváveis, um bilionário (Jack Nicholson) e um mecânico (Morgan Freeman) se juntam depois de dividirem um quarto de hospital, o qual é de propriedade do primeiro, para cumprir uma lista de coisas a fazer antes de um evento que afeta a ambos: o diagnóstico médico de um período de seis meses a um ano de sobrevivência depois de um câncer devastador. Com essa desculpa, a dupla sai pelo mundo para viverem seus sonhos sem restrições, haja vista a profundidade da carteira de um deles e, inesperadamente, chegarem a um acordo com suas decisões tomadas durante a vida e com seus próprios demônios.
Um início bastante dramático evolui para um road movie bem divertido e leve, utilizando as poderosas personalidades cinematográficas de seus protagonistas para seu próprio beneficio, além de contar com belíssimas paisagens mundiais como as Pirâmides, o Nepal e o Taj Mahal. Não há nada de novo aqui no que diz respeito às atuações ou ao desenvolvimento do roteiro, o qual é completamente previsível para o espectador e convencional até a medula. Os dois atores principais se reduzem a repetir seus estilos e maneirismos consagrados. Freeman é sóbrio, nobre e um pouco espantado pela enormidade do que acontece com seu personagem – como de hábito – enquanto Nicholson tira todas as amarras de sua personalidade maior-do-que-a-vida em cada quadro, despejando frases de efeito para todo lado e se deliciando com seu sorriso sardônico – como de hábito.
Surpreendentemente, os estilos de atuação opostos combinam muito bem, ajudados por um bom punhado de diálogos inspirados, que são capazes de arrancar mais do que apenas sorrisos da audiência. E, por vezes, gargalhadas podem acontecer, especialmente por causa da interação altamente irônica e, por que não dizer, terna, entre o personagem de Nicholson, Edward Cole, e seu assistente pessoal Matthew / Thomas, vivido com brilhantismo pelo ator Sean Hayes – o Jack McFarland da série de TV “Will and Grace” – demonstrando que o astro de sitcoms pode sonhar com uma vida fora da caixa da televisão.
Não resisto a deixar aqui um exemplo de como o diálogo entre esses dois pode ser divertido. Cole diz: “Thomas, quando ficar velho, não deixe de obedecer a essas três coisas: não esnobe um banheiro; não desperdice uma ereção; e nunca confie num peido.” Ao que Thomas responde: “Vou me lembrar disso quando começar a ficar decrépito, senhor.”. Ouro puro!
Nem tudo são flores. A principal falha da produção é jamais escolher claramente uma direção, dividida entre ser uma comédia rasgada e um melodrama choroso. Apesar de o experiente diretor Rob Reiner (de “Harry e Sally – Feitos um Para o Outro” e “Louca Obsessão”, ambos já comentados aqui e aqui) fazer de tudo para equilibrar esses dois pólos, fica muito óbvio que as passagens cômicas são muito superiores às puramente dramáticas, as quais se apóiam demais em manipulação emocional para o meu gosto. Temos uma trilha sonora grandiloquente; uma narrativa em off “profunda” e vários diálogos bregas e piegas. Você pensou, ou já viu anteriormente, foi usado aqui. Não tinha necessidade disso, com o calibre dos atores...
De tudo isso, é um bom filme, que lida com questões difíceis e delicadas de uma maneira leve, pelo menos a maior parte do tempo; tem grandes atores em boa forma e contém passagens genuinamente divertidas. O que coloca “Antes de Partir” na categoria de acima da média com distinção.

Elenco: Jack Nicholson (Edward Cole), Morgan Freeman (Carter Chambers), Sean Hayes (Thomas), Beverly Todd (Virginia Chambers), Rob Morrow (Dr. Hollins), Alfonso Freeman (Roger Chambers).

Direção: Rob Reiner; Roteiro: Justin Zackham; Produção: Rob Reiner, Alan Greisman, Neil Meron e Craig Zadan; Co-produção: Frank Capra III; Produção Executiva: Travis Knox, Justin Zackham e Jeffrey Stott; Trilha Sonora: Marc Shaiman; Direção de Fotografia: John Schwartzman; Montagem: Robert Leighton; Seleção de Elenco: Janet Hirshenson, Jane Jenkins e Michelle Lewitt; Design de Produção: Bill Brzeski; Direção de Arte: Jay Pelissier; Cenografia: Robert Greenfield e Mark Tuttle; Figurinos: Molly Maginnis; Maquiagem: Marie Larkin, Valli O’Reilly e Medusah; Som: Ann Scibelli, Marc Fishman e Tony Lamberti; Efeitos Sonoros: Ann Scibelli e Bryan Bowen; Efeitos Especiais: Donald Frazee; Efeitos Visuais: Jerry Spivack.

Classificação:
%%%

Quarta-feira, Agosto 29, 2007

O Ultimato Bourne

O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, EUA, 2007 – 111 min.)

Cartaz: aqui

Trilogia: aqui

Depois de descobrir seu verdadeiro nome e buscar o perdão de sua primeira vítima, Jason Bourne (Matt Damon) tenta fechar as pontas soltas de seu passado. Quando um repórter londrino (Paddy Considine) começa a revirar os arquivos sujos da CIA e da Operação Blackbriar, que sucedeu ao infame Projeto Treadstone, Jason é novamente perseguido implacavelmente por aqueles que o treinaram. Só que, agora, o agente amargurado está mais próximo do que nunca de saber como chegou a ser a mais perfeita máquina de matar. E a cada passo à frente, mais ele teme o próximo a ser dado.
No rescaldo da série “Bourne”, espero que os agentes secretos no cinema nunca mais sejam os mesmos, pois elevaram de tal forma o patamar do gênero que qualquer outro filme que entregue menos ação, urgência e roteiro minimamente inteligente vai afundar sem deixar saudade.
Desde a abertura até o final, o diretor Greengrass imprime um ritmo frenético, urgente e com um acentuado senso de realidade às peripécias do protagonista em busca da sua identidade. Em “Vôo 93”, o inglês já tinha aplicado, com sucesso, técnicas de documentário ao cinema de ficção, com muita câmera na mão, próxima da ação e uma montagem mais fragmentada; neste filme, houve uma radicalização do estilo, onde o olho da câmera treme a maior parte do tempo, utilizando planos fechados e muitos closes, além de uma fotografia crua, granulada (dando um aspecto envelhecido) e em tons frios, dando uma imersão do espectador na trama que poucas vezes eu vi.
Alternando cortes rápidos e planos-sequência (mudanças de cenário ao longo de um período de tempo, sem cortes), Greengrass e seu time mal nos dão espaço para respirar, emendando uma passagem na outra e intercalando um ou outro plano aberto para que o espectador possa relaxar um pouco, mas com a singela intenção de situar o local dos acontecimentos e praticamente somente isso. A cada mudança de cidade, uma tomada aérea é mostrada, identificada e já estamos sendo atirados de novo no meio do desenrolar dos fatos; de vez em quando, a cena é aberta para mostrar onde a próxima correria vai ocorrer e pum!, tome mais closes e tremedeira, quase sempre em locais públicos de grande afluência, utilizados pelo diretor no esquema de guerrilha: enfia a equipe no meio do povão e que se dane, tudo bem se ficarem apontando para a câmera de vez em quando.
Embora seja adequado à proposta do filme, houve um certo exagero no recurso. Assistir “O Ultimato” é uma experiência massacrante; a rapidez dos cortes e a vibração da câmera são ótimos geradores de tensão, mas quando superutilizados somente causam desconforto, incômodo e descolamento da atenção do espectador, que precisa desviar o olhar alguns segundos para poder voltar a acompanhar a história. E isso é mau.
Ciente dessa possibilidade, alguns subterfúgios são colocados em prática para amenizar essa sensação. A trilha sonora, predominantemente percussiva, freia a sucessão de imagens em algumas passagens, como nas cenas passadas em Tangiers, Marrocos e em Nova York e dá a marcação do desenvolvimento dos fatos; desacelerando o ritmo da percussão, dá-se a sensação de que as coisas estão acontecendo mais devagar e ajuda a suportar a pauleira. Outro aspecto interessante é o uso inteligente do som, por vezes fora do campo e, por outras, antecipando uma ação, que já ameniza o impacto e deixa o espectador ciente da imagem que está chegando; temos isso, por exemplo, na estação de metrô/trem em Londres. O som cadenciado das teclas do celular passa a impressão de que os personagens estão pensando no que fazer em vez de saírem correndo desesperadamente para qualquer lado. Poucos filmes utilizam esse potencial do som e foi muito bom de ver essa técnica realizada com tanta competência.
Olhando adiante do apuro técnico, a ação, levemente prejudicada pela epilepsia da montagem, é impressionante. Crua, rápida e brutal, tendo seu expoente máximo na luta entre Bourne e o assassino da CIA Desh em Tangiers. Poucas vezes um livro e uma toalha tiveram o uso mostrado na tela. De arrepiar. Assim como a tensão constante e a sensação de perigo que impregna cada cenário enfrentado pelo protagonista, onde não tem espaço para geringonças elaboradas ou para jogar charme para moçoilas; é risco de vida e não há tempo para bobagens. É pau puro.
O roteiro, de novo de Tony Gilroy, o mesmo do primeiro filme, cuja crítica você pode ler
aqui, com colaboradores, mantém a coerência de toda a série e procura finalizar a contento todos os conceitos apresentados ao longo da trilogia. O subtexto existencialista da jornada de Bourne, com as perguntas clássicas “Quem sou”, “De onde vim” e “Para onde vou”, que são visíveis em cada linha da face do atormentado agente (magnificamente interpretado, com a habitual competência, por Damon, muito confortável e transpirando ameaça), alcançam resultados satisfatórios e fecham bem o arco. Uma outra qualidade do roteiro são os bons diálogos, acima da média, onde os personagens esgrimem com ironia e colocando cada palavra com um significado. As informações reunidas pelo herói são dadas a ele junto com o público, a quem basta seguir os dados para chegar a uma conclusão, jamais explicitada em palavras e comprovando a aposta na inteligência e no bom senso da audiência, que pode curtir não ser tratada como se fosse débil mental.
Mais um diferencial que pode ser encontrado é a crítica sutil ao modelo paranóico e esmagado pelo medo irracional que campeia nos EUA e na comunidade de inteligência depois do 11 de Setembro; utilizando apenas imagens, como a dos arquivos com cidadãos americanos carimbados com a palavra “Terminated – Exterminado” e o estado de nervos dos dirigentes de Blackbriar, que mandam assassinar pessoas sem a menor hesitação, seja dentro ou fora de casa, tendo confirmação de informações ou não. Na dúvida, mate; esse é o lema da CIA de Greengrass e Gilroy, muito mais eficientes do que duas horas de papagaiada demagógica de Michael Moore como voz dissonante do governo Bush.
Algumas armadilhas não foram evitadas, com a repetição de situações já apresentadas, tais como: a cena da mudança de cor do cabelo, quase idêntica à interpretada por Franka Potente no primeiro filme; a insinuação ridícula e desnecessária de um envolvimento amoroso entre Nicky e Jason antes da amnésia, que enfraquece a personagem de Julia Stiles e seus motivos para ajudar ou não o agente, tornando sua conduta um simples artifício para mover a trama; e a perseguição de carros, também sem sentido e que parece desconexa com o restante do filme, apesar de ter um papel de relativa importância no final da projeção e ser belíssimamente encenada, no jeito característico do diretor, brutal e com destruição para dar inveja à Michael Bay (diretor de “Transformers” e os dois “Bad Boys”).
Mesmo um pouco inferior ao segundo e primeiro capítulos, pelos motivos que já coloquei acima, encerra com dignidade a trilogia, como anda na moda; é bem-sucedida artisticamente e certamente definirá para os anos vindouros o cinema de ação e dá novo fôlego à espionagem, da mesma maneira que “Duro de Matar”, veja a crítica
aqui, foi um divisor de águas em seu nicho e renovou as convenções.


Elenco: Matt Damon (Jason Bourne / David Webb), Julia Stiles (Nicky Parsons), David Strathairn (Vice-Diretor Noah Vosen), Scott Glenn (Diretor Ezra Kramer), Joan Allen (Pamela Landy), Paddy Considine (Simon Ross), Edgar Ramirez (Paz), Albert Finney (Dr. Albert Hirsch), Tom Gallop (Tom Cronin), Corey Johnson (Wills), Daniel Bruhl (Martin Kreutz), Joey Ansani (Desh Bouksani), Dan Fredenburgh (Jimmy), Lucy Liemann (Lucy), Colin Stanton (Neil Daniels), Chris Cooper (Alexander Conklin), Brian Cox (Ward Abbott), Ben Youcef (Nabile), Franka Potente (Marie Kreutz – arquivo).

Direção: Paul Greengrass; Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns e George Nolfi (roteiro) e Tony Gilroy (história), inspirados no livro de Robert Ludlum; Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall, Paul Sandberg e Zakaria Alaoui; Co-produção: Andrew Tennenbaum; Produtor Associado: Colin J. O'Hara; Produção Executiva: Doug Liman, Jeff Kirschenbaum, Donna Langley, Henry Morrison e Jeffrey M. Weiner; Trilha Sonora: John Powell; Direção de Fotografia: Oliver Wood; Montagem: Christopher Rouse; Seleção de Elenco: Daniel Hubbard, John Hubbard e Avy Kaufman; Design de Produção: Peter Wenham; Direção de Arte: Robert Cowper, Jason Knox-Johnston e Andy Nicholson; Cenografia: Tina Jones; Figurinos: Shay Cunliffe; Maquiagem: Christine Beveridge e Rose Chatterton; Som: Karen Baker, Bob Beemer, Per Hallberg, Scott Millan, David Parker e Gary Summers; Efeitos Sonoros: Christopher Assells, Ann Scibelli, Peter Staubli e Jon Title; Efeitos Especiais: Pau Costa, Jason Leinster, Lucien Stephenson e Joss Williams; Efeitos Visuais: Peter Chiang, Simon Leech, Charlie Noble, Glen Pratt e Sheila Wickens.

Classificação: %%%

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Ratatouille

Ratatouille (Ratatouille, EUA, 2007 – 110 min.)

Cartaz:
Aqui

Um ratinho do campo francês, Remy, sonha em ser um cozinheiro famoso. Com um ótimo olfato e paladar apurado, ele tem como ídolo o chef Gusteau, propagador da tese “Qualquer um pode cozinhar”. Ao descobrir que Gusteau faleceu, Remy é separado da família pelas circunstâncias e acaba se encontrando com o atrapalhado Linguini, funcionário do restaurante de seu ídolo. A dupla, então, segue junta para conquistar o sucesso na competitiva Paris, enfrentando a oposição do chef Skinner e do temido crítico de gastronomia Anton Ego.
Se tem algo que salta aos olhos a cada produção da Pixar é o extremo cuidado com o planejamento e a dinâmica de cada uma das cenas que aparecem na tela. “Ratatouille” é um primor nesse aspecto, com um visual apuradíssimo e sequências de beleza e fluidez impressionantes, onde vemos como a empresa engoliu a Disney e virou criadora máxima do estúdio. Desde a abertura, com o engraçadíssimo curta “Quase Abduzido” até o final da trama propriamente dita, os artistas conseguem fazer com que o espectador se esqueça de está assistindo uma animação por computador.
Só que, por outro lado, o diretor Brad Bird, cada vez melhor, usa ao máximo as possibilidades que o computador oferece. Em pelo menos três sequências incríveis – a senhora que ataca Remy e sua família com uma espingarda; a fuga pelos esgotos e a primeira vez de Remy na cozinha do Gusteau's – os ângulos de câmera e seus movimentos alucinantes deixam claro que é a máquina que faz aquilo tudo; e a gente não se importa. A genialidade do diretor é fazer com que essa aparente demonstração de preciosismo técnico sirva perfeitamente para a história e ajude a contá-la, ao invés de funcionar como distração.
Outro erro comum que a concorrência comete é a de tentar humanizar demais os personagens que faz; aqui, o traço altamente estilizado dos personagens que aparecem, de acordo com as características de cada um, se soma aos diálogos inspirados e um roteiro enxuto para envolver cada vez mais o público. Corajoso em utilizar, como herói, um animal nojento feito o rato e colocá-lo em um ambiente onde a presença do bicho é altamente indesejável, reforça a mensagem de que não importa a origem, o talento tem que ser reconhecido e ter a oportunidade de se desenvolver. Embora fantasioso ao extremo, alguns toques de realidade são acrescentados aqui e ali e funcionam como âncora do roteiro. Remy e Linguini não conversam propriamente, mas se entendem como poucos e a forma encontrada para o ratinho poder ajudar o completamente desastrado aprendiz de cozinheiro é irônica e doce ao mesmo tempo.
E ainda se dá ao luxo de transformar – não sem uma pequena sensação de abrupto demais – um dos vilões em uma bela maneira de retratar a busca pela simplicidade e redimir (bem, somente um pouquinho) a profissão de crítico, com um monólogo final bem escrito e otimamente interpretado pelo temível Anton Ego. Com fartas doses da ironia e cinismo característicos de Bird, que não perde a chance de espezinhar.
No lado mofado do pão, considerei que houve uma forçada de barra para deixar a trama mais palatável para o público infantil, com excesso de mensagens edificantes, como nos diálogos do chatíssimo fantasma de Gusteau com o ratinho; as aparições da família do bichinho e todo o blá-blá-blá de “conheça seu lugar” e ceninhas engraçadinhas, como a perseguição de Skinner a Remy pelo Sena, o porre de Linguini e as conversinhas meladas entre Colette e Linguini.
Ninguém está imune aos caprichos do mercado, penso eu... Mas, ainda assim, o filme deixa num chinelo roído por ratos 70% das produções live-action que atravancam os cinemas; se todos tivessem o cuidado com a decupagem e o carinho pelo roteiro que essa animação, felizmente deixando de ser um gênero menor, tem, a vida dos espectadores seria menos chata. E o bolso não se sentiria tão aviltado...Hehehe.

Elenco: Não consegui em nenhum lugar quais os dubladores que participaram do filme, e que fizeram um ótimo trabalho, diga-se de passagem. Os únicos que achei foram Thiago Fragoso (Linguini) e Samara Felippo (Colette), os globíferos.

Direção: Brad Bird e Jan Pinkava; Roteiro: Brad Bird (roteiro) e Jan Pinkava, Jim Capobianco, Brad Bird, Emily Cook e Kathy Greenberg (história); Produção: Brad Lewis; Produtor Associado: Galyn Susman; Produção Executiva: John Lasseter; Trilha Sonora: Michael Giacchino; Diretor de Fotografia: Robert Anderson e Sharon Calahan; Montagem: Darren Holmes; Design de Produção: Harley Jessup; Som: Michael Semanick, Michael Silvers e Randy Thom; Efeitos Visuais: Benjamin Andersen, Eric Froemling e Apurva Shah; Animação: Dylan Brown, Michael Venturini e Mark A. Walsh.

Classificação:
%%%

Sábado, Agosto 18, 2007

Grease - Nos Tempos da Brilhantina

Grease – Nos Tempos da Brilhantina (Grease, EUA, 1978 – 110 min.)

Cartaz: Aqui

Os jovens, por assim dizer, Danny (John Travolta) e Sandy (Olívia Newton-John) se conhecem, vivem um romance sensacional e se separam, crentes de que será para sempre, já que ela tem que voltar para a Austrália. Mas eis que o destino intervém e Sandy, acompanhando seus pais, se muda para os EUA definitivamente e, oh!, vai estudar na mesma escola que seu amor de verão. O reencontro não é exatamente ideal, pois Danny, cioso de sua imagem de bad boy e líder dos T-Birds, não deixa transparecer o quanto vê-la de novo o agradou; e o casal passará o filme todo, entre danças e canções, tentando se acertar.
O último grande musical de Hollywood. Ponto final. Aproveitando ao máximo o auge da fama (e da forma física) de John Travolta, recém-saído do mega-sucesso “Embalos de Sábado à Noite” e, juntando a toda essa efervescência: a estréia no cinema da colecionadora de hits musicais (lembrem-se, final da década de 70) Olívia Newton-John; o sucesso duradouro da montagem da Broadway, que já durava mais de cinco anos (estreara em 1972); um elenco simpaticíssimo e aplicado; canções grudentas; e uma atmosfera deliciosamente exagerada e ingênua, não tinha como dar errado.
A história simples e com a maioria das piadas e trocadilhos de duplo sentido suavizada, é dirigida com garra por Kleiser (que ainda cometeria outro filme icônico, “clássico” da Sessão da Tarde, “A Lagoa Azul”), estreando no cinema depois de uma carreira bem-sucedida na TV e que usa muito bem toda a disposição do elenco e as ótimas canções para deixar a narrativa sempre andando, sem permitir que as cenas entre números se arrastem ou desliguem o espectador; algo que causa a maioria das mortes horríveis dos filmes do gênero. O diretor cria boas tomadas, com transições de cenas especialmente criativas e fluidas, principalmente no número de “Greased Lightning”, com uso de objetos de cena como ponte e a total falta de vergonha em assumir os exageros dos cenários, coloridíssimos e bregas e das interpretações caricaturais.
Os personagens não passam de arquétipos culturais, daquilo que as pessoas imaginam que foram os adolescentes dos anos 50 e assim atingem diretamente a memória afetiva do público. Mesmo para mim, que nasci no ano em que foi realizado o filme, a galeria de tipos fala diretamente ao reservatório cultural que possuo dessa década, criado por filmes, livros e séries de TV; não se vê quase nada próximo à realidade. E o que é melhor: quem quer realidade?
Dessa forma fica muito mais fácil aceitar os atores, quase todos na faixa dos vinte e muitos, interpretando adolescentes e curtir as canções que viraram clássicos pop, como por exemplo, “Summer Nights”, “Greased Lightning” – minha favorita – e “You’re the One That I Want”. Além do casal central, soltando faíscas de química na tela, tenho que destacar Stockard Channing, com 34 anos e uma boa forma invejável, arrasando como a desbocada Rizzo; a estréia no cinema do futuro astro da pancadaria Lorenzo Lamas, no papel do abobalhado e hilário herói do futebol americano Tom e participação especial do ícone da Turma da Praia Frankie Avalon, como um anjo desbocado que aparece para dar conselhos a uma das companheiras de Sandy, a voz de taquara rachada Frenchy, vivida por Didi Conn.
No lado riscado do disco, as coreografias são pouco inspiradas, talvez pelo fato de o único dançarino bom de verdade ser Travolta; o resto do elenco, Newton-John em especial, simplesmente não acompanha o ritmo dele. Dessa forma, tiveram que simplificar bastante para que todo mundo pudesse fazer parte do espetáculo e não figuração, como nas cenas do concurso de dança e quando Danny e Sandy contam seu verão para os respectivos amigos. Os diálogos são toscos e causam risos involuntários; assim como a transformação de Sandy para a cena final, meio forçada e onde não dá para não notar a senhora secada que Travolta dá no derriére da moça, quando começa a segui-la até a Casa Maluca. Só faltou o homem babar e a gente rolar de rir.
Nada muito comprometedor, garanto e que deixa a diversão intocada. Resistiu bem à implacável passagem do tempo e às vésperas de completar 30 anos ainda tem lenha para queimar. Não dá para assistir sem um sorrisão no rosto e acompanhando as músicas bacanas.

Elenco: John Travolta (Danny Zuko), Olívia Newton-John (Sandy Olsson), Stockard Channing (Betty Rizzo), Jeff Conaway (Kenickie), Barry Pearl (Doody), Michael Tucci (Sonny), Kelly Ward (Putzie), Didi Conn (Frenchy), Jamie Donnelly (Jan), Dinah Manoff (Marty Maraschino), Eve Arden (Diretora McGee), Frankie Avalon (Anjo da Guarda), Joan Blondell (Vi), Edd Byrnes (Vince Fontaine), Sid Caesar (Técnico Calhoun), Alice Ghostley (Sra. Murdock), Dody Goodman (Blanche), Susan Buckner (Patty Simcox), Lorenzo Lamas (Tom Chisum), Fannie Flagg (Enfermeira Wilkins), Dick Patterson (Sr. Rudie), Eddie Deezen (Eugene Felnic), Darrell Zwerling (Sr. Lynch), Ellen Travolta (Garçonete), Anette Charles (Cha Cha DiGregorio).

Direção: Randal Kleiser; Roteiro: Allan Carr e Bronte Woodard, baseados na peça musical de Jim Jacobs e Warren Casey; Produção: Allan Carr e Robert Stigwood; Produtor Associado: Neil A. Machlis; Canções de: John Farrar, Barry Gibb, Louis St. Louis, Jim Jacobs e Warren Casey; Direção de Fotografia: Bill Butler; Montagem: John F. Burnett; Seleção de Elenco: Joel Thurm; Design de Produção: Philip M. Jefferies; Cenografia: James L. Berkey; Figurinos: Albert Wolsky; Maquiagem: Edwin Allen, Christine George, Daniel C. Striepke e Bron Roylance; Som: Jerry Jost e Bill Varney; Efeitos Sonoros: Charles Moran; Efeitos Especiais: Ken Speed; Efeitos Visuais: Ron Hays.

Classificação: %%%%