Cartaz: Aqui
Em 1997, próximo da visita do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro, somos convidados a acompanhar as trajetórias de dois aspirantes a oficial da PM, André (André Ramiro) e Neto (Caio Junqueira) rumo à entrada de ambos no BOPE, batalhão especial de combate ao tráfico nos morros cariocas, suas relações com o sistema corrupto, a sociedade e seu mentor, o irascível capitão Nascimento (Wagner Moura).
O primeiro filme de ficção do documentarista José Padilha – de “Ônibus 174” – é um soco no estômago do espectador.
Com uma estética crua e sem rodeios, o cineasta literalmente nos joga no meio de uma operação de “limpeza” do Morro do Turango, local onde o papa ia se hospedar durante sua visita.
Utilizando um ângulo inédito no cinema brasileiro até então, que é o lado da polícia militar, “Tropa” é extremamente envolvente em sua apresentação das mazelas sociais tão conhecidas da capital fluminense com a participação de todos os seus “artistas”: os policiais, os traficantes/criminosos e a sociedade civil.
Sem tomar partido, o diretor escolheu uma frase para abrir a narrativa e que já dá o tom. O caráter do personagem é bem menos relevante para suas ações do que o ambiente onde ele está.
Dessa forma, Padilha demonstra todo o ciclo vicioso do sistema de convivência entre os marginais, os marginalizados e os supostos protetores da lei. O policial se corrompe por ser mal remunerado e mal treinado, sem disposição para ficar tomando tiros e morrer por nada; os traficantes entram na vida do crime pela total falta de oportunidade que a sociedade os concede; e essa mesma sociedade é corroída pela hipocrisia e a indignação sem sentido prático algum.
Sobra para todo mundo.
Apresentada pela eficiente e ácida narração em off do personagem Nascimento, capitão do BOPE, vivido com a garra e talento habituais por Wagner Moura – que cuida com brilho das poucas partes expositivas do roteiro; o filme não perde tempo com detalhes – a trama é maravilhosamente montada por Daniel Rezende (com idas e vindas no tempo para dar molho).
Conta ainda com um trabalho de câmera excelente de Padilha e Lula Carvalho, trabalhando com o digital na melhor tradição de Michael Mann – de “Colateral” e “Miami Vice” – na demonstração de como o baseado “inocente” do jovem privilegiado traz conseqüências graves para os moradores das favelas e para os policiais que lutam contra um inimigo poderosíssimo e inclemente: a força econômica e militar dos traficantes de drogas em contraponto com as condições indigentes de trabalho dos defensores da lei.
Esmagados por baixos salários e falta de perspectivas, a reação extremada e violenta dos membros do BOPE, mostrados como uma ilha de integridade – por opção narrativa, não que seja necessariamente verdade – em um mar de corrupção policial, representada pelos oficiais do batalhão onde os aspirantes são designados para trabalhar, é chocante; e, o que é pior, aparentemente justificada pelas circunstâncias, de se verem obrigados a devolver crueldade e total desrespeito pela vida humana na mesma moeda para não serem devorados por elas.
O capitão Nascimento, que foi endeusado, erroneamente, pelo público, é um homem essencialmente cordial e amoroso com sua família e seus amigos; e que pratica regularmente a tortura e o assassinato para atingir os objetivos de proteger a sociedade, não sem receber uma fatura terrível – sua vida familiar está em frangalhos e sua saúde está prejudicada pelo excesso de tensão e stress. Onde está a apologia da violência tão alardeada pelos patrulhadores? O cara está longe de ser mostrado como exemplo...
Com tema e apresentação tão polêmicos, o filme foi massacrado por boa parte da crítica especializada como sendo “fascista” e “apóstolo da violência e da tortura policial”. É o contrário. Sem se preocupar em apontar uma solução – um dos poucos defeitos que eu vejo no filme – “Tropa de Elite” tem o único objetivo de causar desconforto no espectador e incutir no seu público uma semente.
Essa semente é a idéia, poderosa, de que todos nós temos responsabilidade sobre o descalabro social e criminal existente hoje e podemos, se quisermos, começar a estabelecer bases para uma melhora, se deixarmos a hipocrisia de lado e reconhecermos que todos são vítimas dessa guerra e têm sua parcela para pagar: policiais, moradores, consumidores e traficantes.
Essa é, ao meu ver, o subtexto do filme, que para ser discutido com a profundidade merecida, teria que virar tese de mestrado ou doutorado. Obviamente, não é aqui o espaço para isso.
O melhor é que, como entretenimento, também funciona muito bem.
Um exemplar legítimo, na acepção positiva da palavra, de filme de ação, tem muito tiroteio – um trabalho sensacional de uso de som (chamo a atenção para, a título de ilustração, a apresentação do batalhão dos aspirantes. A narração somente pára quando os personagens corruptos falam. Brilhante), efeitos sonoros (os tiros parecem que estão zunindo sobre nossas cabeças) e efeitos especiais - correria e cenas de tirar o fôlego.
As atuações são de alto nível, com destaque para o estreante André Ramiro – alter ego do espectador – como André Matias e Milhem Cortaz como o corrupto-gente boa Capitão Fábio; os personagens e a história são tão envolventes que mal se sente passar a projeção de mais de duas horas.
Ritmo frenético, humor na dose certa, ação da melhor qualidade e idéias; uma bela mistura, praticamente inédita na produção de cinema nacional – que em sua maioria ainda está presa ao trinômio favela-sertão-pretensão.
Que orgulho e que venham mais filmes como “Tropa de Elite”!
Elenco: Wagner Moura (Capitão Nascimento), André Ramiro (André Matias), Caio Junqueira (Neto), Milhem Cortaz (Capitão Fábio), Fernanda Machado (Maria), Maria Ribeiro (Rosane), André Mauro (Rodrigues), Paulo Vilela (Edu), Fernanda de Freitas (Roberta), Fábio Lago (Baiano), Erick M. Oliveira (Marcinho), Patrick Santos (Tinho), Rafael D’Ávila (Xuxa), Emerson Gomes (Xaveco), Roberta Santiago (Rose), Bernardo Jablonski (Professor Gusmão), Marcello Escorel (Coronel Otávio), Marcelo Vale (Capitão Oliveira), Paulo Hamilton (Soldado Paulo), Thogun (Cabo Tião), Murilo Elias (Coronel Antunes), Alexandre Mofatti (Sub-comandante Carvalho), André Santinho (Tenente Renan), Rod Carvalho (Tenente Barcelos).
Direção: José Padilha; Roteiro: Bráulio Mantovani, José Padilha e Rodrigo Pimentel; Produção: Marcos Prado e José Padilha; Co-produção: James D’Arcy e Eliana Soárez; Produção Executiva: Maria Clara Ferreira, Bia Castro, Genna Terranova e Scott Martin; Trilha Sonora: Pedro Bromfman; Direção de Fotografia: Lula Carvalho; Montagem: Daniel Rezende; Seleção de Elenco: Fátima Toledo; Direção de Arte: Tule Peake; Cenografia: Tiago Marques Teixeira; Maquiagem: Martin Macías Trujillo e Ignácio Pasedas; Figurinos: Cláudia Kopke; Som: Alessandro Larroca e Armando Torres Jr.; Efeitos Sonoros: Eduardo Virmond Lima, Fernando Lobo e Juliana Lago; Efeitos Especiais: Bruno Van Zeebroeck.
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